É demasiado cedo para este miúdo ser indigente. Ainda não é demasiado tardeMAS QUE RAIO ANDAMOS TODOS NÓS A FAZER?
Por Paulo Santiago
BARREIRO

Por Jornal Rostos
Tratemo-lo por Jim. Os olhos reflectem a profunda mágoa e revolta que o medo da vida pisa e repisa aos 16 ou 17 anos. A cara é a de um Christian Bale latino. Ao tempo do Império do Sol. Pressinto que, como a personagem, o Jim foi apanhado entre guerras sem lei. Daquelas batalhas constantes que destroçam vidas ao nosso lado. De que desviamos o olhar até que nos expludam na cara. De que nos defendemos com elevados valores morais e preconceito afinado. Afinal, somos nós. E é o outro. Está perdido? Who cares.
O Jim diz que rouba para viver. “Porquê? Quem são os teus pais? Onde vives?”. Que “na rua. Por aqui e por ali.”. Que “ontem passei a noite no Parque (Catarina Eufémia)”. Que os pais (?), na Quinta da Lomba, “correram” com ele. As vozes dispersas falam de assaltos. Muitos. Trocos, telemóveis e outros gadgets. Ao mais pequenos. Mais novos. Que testemunham que sem violência. Ele pede e eles dão. Porquê? “Achas que eles são todos ricos?”. Afinca-me com um directo “pelo menos têm casa e têm pais”. “Sabes que com essa idade podes ir parar à prisão?” ameaço. Muito pouco convicto. A sentir o coração no céu-da-boca. Enfia-me um simples “para vocês é tudo muito fácil”. E é. Nenhum de nós, os vocês, o pode negar. O Jim sabe que para nós é fácil. Demasiado fácil. Condenar, ameaçar, explodir de raiva. E afastar da vista. Se possível prender. Acima de tudo, ignorar.
Em fala informal soube que o Jim tem um montão de queixas. Assente na Comissão de Protecção de Menores. Está registado. Em processo. “É muito difícil uma instituição aceitá-lo devido à idade”. A solução seria levá-lo à Polícia. Mais uma vez. Presumo.
A voz oficial, em fala informal, disse-me para, fazer “o que achasse melhor enquanto cidadão”. O Jim, olhos nos olhos, com uma serenidade imperturbável, a esconder uma doçura que se calhar nunca teve direcção, disse-me que não tem documentos e que rouba, também, para comer.
Como cidadão decidi, para já, escrever. Falar do Jim. Aqui. Como um moinho de vento. É da cidade em que vivo que estamos a falar. Como cidadão sei que estou sujeito ao tradicional apedrejamento por ter descoberto doçura num ladrão ou medo num indigente mais que potencial. Por, felizmente mais uma vez, ter pisado a linha tão bem definida entre o bem e o mal. Não tenho nenhum tipo de garantia de que ele não repita alguns dos actos que me levaram a conhecê-lo. Ou pior. Como cidadão, só peço que reparem no Jim. Que façamos um esforço para ajudar a reparar o seu roteiro dom destino tão previsível. Afinal, ele anda por aí. Afinal, “está referenciado”.
Por agora, parece-me que o Jim aprendeu muito bem a lição agarrada a uma das linhas da tal personagem do Império do Sol
Basie: Jim, didn´t I teach you anything?
Jim: Yes! You taught me that people will do anything for a potato*
*Basie: Jim, não te ensinei nada?
Jim: Sim! Ensinaste-me que as pessoas fazem qualquer coisa por uma batata.
Paulo Santiago/ Dias de Maio 2010
PS: Como cidadão, dispenso-me de comentar e responder a quaisquer comentários embebidos da habitual demagogia política ou de qualquer outra natureza. Este texto é apenas um desabafo e um alerta. Se alguém quiser saber e puder dar uma mão a este jovem, óptimo. Só isso.














