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Quotidianos

UMA CONSTANTE HISTÓRICAPor Nuno Santa Clara Gomes
BARREIRO

Creio que o bom senso se vai impor, ou vai ser imposto do exterior. A Terceira Travessia do Tejo é irreversível, porque há constantes históricas, porque há razões lógicas, porque o determinismo geográfico o impõe.
Fora disso, só nos resta uma apagada e vil tristeza…

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UMA CONSTANTE HISTÓRICA Por Nuno Santa Clara Gomes BARREIRO

Por Jornal Rostos

José Caro Proença, na sua obra “encobrimentos dos Descobrimentos” (que deveria estar presente em todos os lares deste concelho) faz um estudo muito interessante das vias, tartéssica primeiro, romana depois, que desembocavam, ou tinham origem, no estuário do Coina.
Equabona se chamava então a povoação cujo nome se confunde hoje com o do rio. A estrada romana que, a partir da margem Sul do Tejo, conduzia à cidade de Emerita Augusta (hoje Mérida), sede da província romana da Lusitânia, tinha aí a sua origem. Até as distâncias estavam contabilizadas: doze mil passos de Equabona a Cetobrica (Setúbal), mais doze mil até Ceciliana (Gualva), outros doze até Malaceca (Marateca) e assim por diante, num total de 212 mil passos até Emerita.
Outros autores situam em Almada (Cacilhas) ou no Seixal a origem dessa estrada. José Caro Proença empenha-se na defesa da “sua” Coina, e com argumentos de peso. As condições naturais do Coina, sobretudo da sua margem direita, foram determinantes para a grande empresa dos Descobrimentos. Aí estava a Ribeira das Naus (segundo carta topográfica antiga), a Real Fábrica do Biscoito, os fornos de cerâmica, a mata de sobreiros e pinheiros, enfim todo um conjunto de condições e estruturas que privilegiavam aquele local, já de si porta para o hinterland alentejano.
A prova real das suas condições naturais foi tirada com a escolha do Barreiro para testa do Caminho de Ferro do Sul. Porque não Almada, Seixal ou Montijo? A resposta é dada pelo engenheiro Miguel Pais, em 1876: é certo que não restará a Cacilhas senão a vantagem de ter menos 5,5km de travessia fluvial, vantagem mais que compensada pela economia resultante do trajecto pelo Barreiro. Quanto a outras hipóteses, iam ao arrepio da ligação velha de séculos.
Uma constante histórica, então, sancionada pelo positivismo do século XIX; engenheiro dixit.

Toda a evolução do Barreiro nos séculos XIX e primeira metade do século XX assentou nesta constatação: é o local lógico para a ligação e integração, não só das duas margens do Tejo, mas também para a junção Norte-Sul.
Então, o que se passou na segunda metade do século XX? Construi-se uma ponte no local mais estreito, o que também parece lógico. Obra do Regime, nome a condizer, que os ventos da História alteraram. Mas o mais interessante foi ter sido prevista a vertente ferroviária, embora tivesse levado umas dezenas de anos a levar à prática; ainda assim, louve-se a capacidade de previsão, que deixou feito o túnel que permitiu a fácil complementação da ponte rodoviária pela via-férrea.
Louvável espírito de previsão, que não teve seguimento, como veremos.
Seguiu-se a discussão da Segunda Travessia do Tejo. Onde estava eu, nessa época? Noutras paragens, tratando de outras coisas, tão nacionais como esta. Mas o que me saltou logo à vista (mesmo não tomando parte no debate) foram duas questões essenciais.
Primeiro, porque não foi seguido o eixo lógico, histórico, racional, enfim, o ditado por um conjunto de razões, ou seja, o trajecto Chelas-Barreiro?
Segundo, porque foi construída uma ponte puramente rodoviária? Tal decisão caberia dentro do objectivo da preparação para o século XX, o do automóvel; mas o problema é que a ponte foi feita nas vésperas do século XXI. Decerto haverá montes de razões que arrasem esta asserção; mas é minha íntima convicção que, dentro de alguns anos (não sei quantos), será suprimida uma faixa em cada sentido da ponte Vasco da Gama, para uso exclusivo de transporte de massa, com carris ou sem carris.

Aliás, como madeirense, estou habituado a estas opções desfasadas no tempo. A título de exemplo, em matéria de transportes, na primeira metade do século XX, enquanto as Canárias construíam um porto com 3 km de cais, a Madeira, laboriosamente, construiu três centenas de metros. Quando as Canárias dispunham de dois bons aeroportos, construiu-se, com décadas de atraso, um mini aeroporto, óptimo para os amadores de sensações fortes. Quando foi aumentado o porto, já nos anos 60, para permitir a atracagem dos grandes paquetes, as pessoas passaram a viajar de avião. Quando, para aproveitamento dum cais deserto, se começou a sua transformação em terminal de carga, teve início a nova vaga dos cruzeiros marítimos, obrigando a deslocar a carga e a construir um terminal de passageiros. Quando ficou pronto o novo aeroporto, os novos aviões precisavam de menos pista.
De modo que a polémica da ponte Barreiro/Montijo é para mim um déja vu, perdoem-me o galicismo.
Dizem que a História se repete, mas não é de todo verdade; em cada ciclo, algo se ganha. Se me permitem a comparação matemática, a História não é um círculo, mas uma helicoidal: em cada volta, sobe um tanto. E estas questões cíclicas, que por vezes nos deixam um travo amargo, não são para desesperar.
Creio que o bom senso se vai impor, ou vai ser imposto do exterior. A Terceira Travessia do Tejo é irreversível, porque há constantes históricas, porque há razões lógicas, porque o determinismo geográfico o impõe.
Fora disso, só nos resta uma apagada e vil tristeza…

Nuno Santa Clara

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