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Quotidianos

SOCORRO! O MEU VIZINHO COMPROU UMA VUVUZELAPor Florbela Viegas
BARREIRO

Agora até tenho medo de ir aos postos da GALP, porque já sei que é certo e sabido que não vou poder atestar o carro, sem trazer uma vuvuzela atrás de mim. Sim, porque como boa portuguesa que sou, a cavalo dado, não se olha ao dente.

Sou uma tinhosa, eu sei, mas essa coisa dá-me cabo dos nervos. E dos ouvidos. Não se pode exterminá-la?”

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SOCORRO! O MEU VIZINHO COMPROU UMA VUVUZELA Por Florbela Viegas BARREIRO

Por Jornal Rostos


Confesso que, ultimamente, tenho andado muito preocupada com o meu Vizinho do lado.

Faz tempo que não falo com ele, apesar de, de vez em quando, me assomar à sua janela, assim, como quem não quer a coisa, para cuscar o que vai lá por casa.

Desde que mandou gradear as portas e as janelas, que me tenho limitado apenas a passar à sua porta, sem bater, nem chamar por ele.
Isto cá para nós, ele tem muito mau feitio e embirra solenemente com a minha tendência de trocar os «vês» pelos «bês», quando converso com ele.
Quando pensava que era difícil o meu Vizinho voltar a surpreender-me, eis que oiço um som familiar, parecido com o seu assoar, um som perturbador e constante, como um elefante constipado.
Ainda pensei que o circo que estacionou há umas semanas, aqui perto, se tinha esquecido de algum elefante, mas a ilusão de um bicho de muitas toneladas, a entrar pelo jardim de quem tão diligentemente me acorda, quase todos os dias, com barulhos vários, não durou muito.
Ainda confusa, acabo por perceber que aquele som só poderia querer dizer uma coisa: o meu querido Vizinho do Barreiro Velho, que me atormenta a tranquilidade diária, com as suas marteladas e cantorias, tem agora à sua disposição, uma vuvuzela.
- “Kaneko, Vizinho, não havia necessidade!”
Há muito tempo que não tinha um ataque de riso tão grande, daquelas gargalhadas que emergem do fundo da nossa barriga e quase não nos deixam respirar.
No meu caso, o culpado foi o meu Vizinho e as suas tentativas de tocar Vuvuzela. É que, além de ser hilariante, a figura dele é tão ridicula, que eu acho que vou passar muito mais tempo a rir do que a barafustar.
Mas ele não desarma. Continua a soprar feito um louco e ainda tem o descaramento de me vir pedir o meu baton do cieiro, emprestado, pois já tem as beiças vermelhas e inchadas de tanto se esforçar.
- “Vizinha, por acaso não me empresta o seu baton do cieiro? É que já me doem os lábios e não há meio de conseguir fazer como aquele sujeito, o Mabhuti, que veio de propósito da África do Sul, para nos ensinar a vibrar as beiçolas”.
- “Tenha juízo, Vizinho! Isso é lá coisa que se empreste? O baton do cieiro? O Vizinho não vê que é anti-higiénico? E, além disso, é cor-de-rosa. Não lhe ficava nada bem, andar de lábios pintados de rosa. Para mais, aqui no Barreiro. O que é que iriam dizer de si?”
- “Não seja tinhosa, Vizinha. Está quase a chegar o grande momento, em que a selecção de todos nós, vai começar mais um campeonato do Mundo.
Por alguns dias, o país vai esquecer os problemas, a crise, o desemprego e o facto de Portugal estar mais endividado que o Madoff. É claro que, nestas coisas, nunca há bela sem senão. Lembraram-se, neste mundial, de usar a vuvuzela, para promover o evento, e eu acho genial. Assim uma pessoa pode desopilar o fígado à vontade”.
E, dizendo isto, tornou a soprar ainda com mais força, aquilo que já é considerado, por muitos, um instrumento de tortura, pior do que a inquisição. Uma verdadeira arma africana, com um ruído insuportável.
-“ Olhe lá, Vizinho, e não acha que a GALP já nos tortura o suficiente com os preços dos combustíveis? A maré laranja provocada pelo derrame de vuvuzelas da GALP, fabricadas na China, é maior que a do Cavaco nos anos 80 e já é uma ameaça ambiental, maior que a maré negra da BP, na costa do Louisiana. E o Vizinho ainda vem aqui, para a minha porta, ajudar à festa e fazer barulho. Acha isso justo?
Por isso não admira que haja tanto crime na África do Sul. Se eu tivesse que ouvir essa gaita todos os dias, a toda a hora, também iria ficar revoltada com a sociedade e desenvolveria a minha vertente criminosa.
Agora até tenho medo de ir aos postos da GALP, porque já sei que é certo e sabido que não vou poder atestar o carro, sem trazer uma vuvuzela atrás de mim. Sim, porque como boa portuguesa que sou, a cavalo dado, não se olha ao dente.
Sou uma tinhosa, eu sei, mas essa coisa dá-me cabo dos nervos. E dos ouvidos. Não se pode exterminá-la?”
- “Nada disso, Vizinha. A vuvuzela é o instrumento do futuro. Vai ser adoptada, em Portugal, por todos os serviços públicos e pelos políticos em geral. A partir de agora, quem não souber tocar vuvuzela, não entra. Nem o Presidente da República.
Por que motivo acha que não foram seleccionados alguns dos melhores jogadores de Portugal? Porque não sabiam tocar vuvuzela, é óbvio. E todos os que ficarem no banco, é porque não sabem tocar vuvuzela.”
Em seguida, o meu Vizinho desata na maior barulheira de que há memória. Fechei a janela e fiquei a meditar naquilo que ele disse.
Realmente, neste país em que só algumas SCUT vão pagar portagem, onde se encerram escolas, se param obras de interesse nacional, onde não se pagam horas extraordinárias aos médicos e enfermeiros do Serviço Nacional de Saúde, se encerram urgências pediátricas nocturnas e onde afinal não há apitos dourados, a vuvuzela é o que está a dar.
Afinal de contas e pensando melhor, acho que também vou comprar uma. Vou juntar-me ao meu Vizinho e vou dar um valente sopro anestesiante, a todos aqueles que gostam deste instrumento. Assim, ficarão com um enorme sorriso e não sentirão, tão cedo, as dores que, em breve, se farão sentir.

Florbela Viegas

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