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Quotidianos

Came across the Atlantic RiverPor Nuno Santa Clara
BARREIRO

O Tejo foi, desde que há memória, berço de uma mesma civilização, mesmo quando os meios da sua transposição eram bem precários. Mergulhando no mais profundo da nossa História, durante o período Neolítico (no terceiro milénio antes de Cristo) floresceu na sua bacia inferior um grupo cultural que ficou caracterizado pelas suas construções funerárias.

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Came across the Atlantic River Por Nuno Santa Clara BARREIRO

Por Jornal Rostos

Há já alguns anos, vi um anúncio numa publicação qualquer com este título insólito. O anúncio representava o Oceano Atlântico de tal maneira estreitado que se diria um rio que separava a Europa da América. Muito sugestivo: reduzido a rio, o Atlântico passava a ser, não uma barreira, mas um traço de união entre as duas margens continentais.
Assim o diz a Geografia: os rios são cadinho de civilizações, ligação de povos, aglutinadores de uma mesma cultura, firmemente estabelecida nas duas margens, trate-se dos rios Nilo, Ganges, Tigre e Eufrates, ou sobretudo dos grandes rios da China.
Para que um rio seja fronteira, são necessários séculos de guerras, de desconfiança recíproca e de um acordo político final. Deste modo o Reno, fronteira dita “natural” entre a França e a Alemanha, deixa de o ser quando corre na Holanda ou na Suíça; já o seu rival Danúbio só em escassa parte do seu trajecto constitui fronteira.
Entre nós, o Minho, o Douro, o Tejo e o Guadiana só são fronteira onde se convencionou que assim fosse; no restante percurso, nem sempre dividem sequer províncias ou distritos.
O Tejo foi, desde que há memória, berço de uma mesma civilização, mesmo quando os meios da sua transposição eram bem precários. Mergulhando no mais profundo da nossa História, durante o período Neolítico (no terceiro milénio antes de Cristo) floresceu na sua bacia inferior um grupo cultural que ficou caracterizado pelas suas construções funerárias. Enquanto noutros pontos do nosso território se erguiam as antas, aqui foram escavadas na rocha câmaras em forma de meia esfera achatada, com um corredor de acesso oblíquo dotado de uma antecâmara. Este tipo de sepultura colectiva tem o nome de tholos (por analogia com a expressão grega para uma sepultura colectiva de forma circular) e foi encontrado nas duas margens do Tejo, na Quinta do Anjo, em Carenque, Alapraia e S. Pedro do Estoril. Ora, os tholoi (plural de tholos) de Carenque são iguais aos tholoi da Quinta do Anjo. Isto quando atravessar o Tejo era uma aventura…
Sabemos que as duas margens do Tejo desde sempre se complementaram economicamen-te, que ambas participaram activamente nos Descobrimentos, que evoluíram paralelamente na Revolução Industrial, que se procuraram através do caminho de Ferro.
De onde vem, portanto, o afastamento que originou o complexo da Outra Banda? Não partiu decerto dos habitantes das suas margens, marcados por milénios de integração.
Um motivo terá sido o transporte de superfície. Substituída a carroça pela viatura automóvel, o fosso alargou-se, já que, pela primeira vez, o transporte terrestre era mais rápido e mais cómodo que o fluvial. Lisboa expandiu-se para Oeste, Norte e Leste. As leis do mercado ditaram estas linhas mestras, e ninguém se preocupou em corrigi-las.
Mas não só. A Margem Sul, e em especial o Barreiro, tornou-se uma zona industrial, berço de uma cultura operária, e local de chegada dos migrantes internos que fugiam da proletarização acentuada do Sul do território, e que depressa se integravam numa identidade cultural muito própria, misto das tradições com os novos tempos. Essas características tendiam a tornar-se permanentes e indissociáveis das terras deste lado, em contraponto com a tendência da moda e da volubilidade dos grandes centros, a que Lisboa não escapa.
Isto é demais para o centralismo (jacobinismo?) que sempre pautou a nossa vida política, quer na Monarquia Liberal, quer na Primeira República, naturalmente no Estado Novo e que vai ressurgindo aqui e ali nesta nossa Segunda República. Pelo que considerar a Margem Sul um deserto não nos deve, infelizmente, surpreender.
O subconsciente prega-nos partidas, seja ele o individual ou o colectivo. Quando tudo indicava que a ligação das duas margens se deveria fazer pelo centro – e há estudos antigos que já referiam essa solução – foi-se para as periferias. Primeiro por uma questão de distância: foi escolhida a travessia mais curta. Depois por razões menos nítidas, mas com uma opção desastrosamente limitada, reduzida à circulação rodoviária.
A solução lógica ficou para o fim. E a Terceira Travessia do Tejo deve ser considerada não uma mera opção, mas uma inevitabilidade, uma continuação dos fluxos velhos de milénios, do Neolítico, de Tartessos, dos Romanos, da navegação à vela, do caminho-de-ferro, fluxos esses que só o petróleo interrompeu. Mas o petróleo está a acabar e (por uma vez!) podemos anteciparmo-nos ao mundo que aí vem.
Será que as soluções mais sensatas acabam por nos ser impostas do exterior, como tantas vezes na nossa História? Já se diz que a Terceira Travessia nos será imposta. Bem mau seria, porque nove séculos de História e sete de fronteiras estáveis já nos deviam ter ensinado qualquer coisa.
De qualquer forma, aproveitando a nossa inserção na Comunidade Europeia, podemos aplicar ao Mar da Palha o que foi aplicado ao Oceano Atlântico e dizer aos que procuram novas oportunidades deste lado da grande metrópole:
Came across the Tagus River!

Nuno Santa Clara

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