Cedant arma togaePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Fraco latinista que sou, não sei se esta citação está gramaticalmente correcta. Mas o seu espírito está de certeza: trata-se de um dito latino, do tempo da República Romana, e significava, numa tradução livre, que as armas deviam ceder o passo às togas. Ou seja, que o poder militar (as armas) deveria estar subordinado ao poder civil (as togas).
Júlio César entendeu de forma diferente – e foi o fim da República Romana.
Este conceito nem era novo. Já no século V Antes de Cristo, na China dos Reinos Beligerantes, antes da unificação operada pelo primeiro Imperador, um grande clássico escreveu sobre esse assunto, que ainda hoje parece causar polémica. Esse escritor era Suen Tse (também conhecido por Sun Tzu), que para muitos será desconhecido como autor, mas cujas teorias estão na base dos escritos militares de Mao Ze Dong (ou Mao Tsé Tung, como queiram); este limitou-se a dar uma demão de marxismo-leninismo numa doutrina com 2.500 anos.
Ora Suen Tse escreveu que ao Príncipe competia nomear o General Comandante, e a este conduzir a guerra; se o Príncipe não estava contente com a condução da guerra, deveria substituir o General, mas não deveria interferir nas operações militares.
Não sei se Obama leu Suen Tse, mas até parece que sim. O General McChrystal extravasou as suas competências e contestou a direcção política da guerra; o Príncipe, ou seja, o Presidente e Comandante Supremo das Forças Armadas, demitiu-o, e nomeou para o substituir o General Petraeus. Coisa rara nos EUA, onde os militares têm um respeito incondicional pelas instituições e, enquanto no activo, não tomam atitudes políticas. É certo que houve excepções: Mac Arthur e Westmoreland imiscuíram-se na condução política da guerra, e pagaram por isso.
Stanley McChrystal é um produto acabado das operações especiais. Desde Alferes serviu nas tropas aerotransportadas (airborne), num Grupo de Operações Especiais, num Batalhão de Rangers, participou na I Guerra do Golfo como oficial de Operações Especiais, voltou aos aerotransportados e comandou um Regimento de Rangers. Como General chefiou o Comando Conjunto de Operações Especiais, tendo como títulos de glória a captura de Saddam Hussein e a morte de Abu Musab al-Zarqawi. Mas as suas tropas ficaram também conhecidas pelos métodos pouco ortodoxos de interrogatório, e parte delas implicadas na história dos maus tratos na prisão de Abu Graib, e McChrystal foi objecto de inquérito pelo Senado.
Promovido a General de 4 estrelas em 2009, foi comandar as forças da NATO no Afeganistão. Numa primeira apreciação, reclamou mais tropas, caso contrário a guerra poderia estar perdida; estaria no seu direito, mas o problema foi que tornou público este relatório, sendo desde logo encarada a possibilidade da sua substituição. Posteriormente, reclamou publicamente um reforço de 30 a 40.000 soldados, provocando nova vaga de protestos na Defesa e no Senado. Mais recentemente, o seu estado-maior teceu uma série de críticas à administração Obama, ao Embaixador americano e ao enviado especial no Afeganistão. Às três, foi de vez, e McChrystal apresentou a sua demissão, prontamente aceite.
Cedant arma togae.
David Petraeus tem um perfil diferente, embora também tenha feito a sua carreira na Infantaria, dividido entre tropas aerotransportadas e mecanizadas, ou seja, entre Infantaria ligeira e pesada. Mas teve também passagens pela Universidade e como professor em West Point, a Academia Militar americana. Prestou serviço nas 82.ª e 101.ª Divisões Aerotransportadas (veteranas do desembarque na Normandia), com actuações no Haiti, Kuwait e Bósnia.
Mas foi a II Guerra do Iraque que atingiu mais notoriedade. Comandando a “sua” 101.ªDivisão Aerotransportada, tornou-se famoso, não tanto por feitos militares, mas pela forma como governou o território ocupado, na área de Mossul, relançando a actividade económica, orientando obras públicas, organizando eleições e lançando cerca de 4.500 projectos de reconstrução. Segundo ele, as munições desta guerra eram o dinheiro.
Sem dúvida que a sua passagem por outros teatros de operações lhe tinha dado uma perspectiva diferente do que deviam fazer as suas tropas. Mas também é certo que, ao mesmo tempo, noutros sectores estavam a ser conduzidas acções, como as de Abu Graib, que levaram ao descalabro e ao descrédito das forças americanas.
Regressando aos Estados Unidos, Petraeus chefiou o Centro de Armas Combinadas do Exército, onde procurou sistematizar e difundir a sua visão por todas as escolas, reafirmando e reformulando a doutrina de contra-insurreição - o que não é o mesmo que operações especiais.
Nomeado para o comando das Forças Multinacionais no Iraque, foi encontrar uma situação mais degradada, e a “sua” 101.ª Divisão tinha sido substituída por uma brigada com um quarto dos efectivos. Aplicar a “doutrina Petraeus” a um país com ressentimentos profundos é problemático; é como deixar evoluir uma doença, e, quando já não há esperança, confiar num remédio novo e milagroso.
De modo que Petraeus ficou como o então Coronel de Gaule: deram-lhe razão, mas tarde demais.
Encurtando a história, vemos de novo este general atípico (para o padrão americano) ser nomeado para remediar uma situação degradada. Mais uma vez, tarde demais?
Voltando aos clássicos chineses, há um outro, chamado T´ai Kung, dizem alguns autores que seis séculos mais antigo que Suen Tse, que escreveu: “As questões militares não são decididas pelas ordens do soberano. São todas da responsabilidade do general que comanda”.
A arte suprema do Comandante está na conjugação deste aparente antagonismo.
Cedant arma togae, sem dúvida. Mas não queira o soberano comandar as tropas.
Sobretudo porque há por ali algumas que são nossas…
Nuno Santa Clara.














