Uma repetida ausência de alma.Por José Assis
Seixal

Por Jornal Rostos
Continuam e vão continuar as homenagens à obra de Saramago, incluindo o trabalho do PÚBLICO de 26/06/10. Quando muito se fala em perda de valores não se entende a tendência para lançar no esquecimento quem foi reconhecido no seu trabalho, elevado ao patamar de prémio Nobel, preferindo-se a pequenez da análise preconceituosa à obra universal do escritor. Como podemos querer defender os valores, designadamente o da liberdade, se os atacamos quando eles estrategicamente não nos interessam? A liberdade de pensamento não tem dono e não varia, na sua definição, segundo estratégias próprias. Mesmo com os limites do decoro a serem ultrapassados, como aconteceu com a capa da Playboy alusiva ao Evangelho Segundo Jesus Cristo, impunha-se senso no posicionamento institucional face a uma figura nacional.
Contrastando à justiça da homenagem ficará para a história, a ausência, por opção própria e institucional, de Cavaco Silva, no funeral do escritor que partiu. A opção do Presidente da República foi ilegítima. A sua opção pessoal entristece, assim como a tentativa de desvalorização desse ato faltoso e até da obra do comunista ( incrível a opinião de Vasco Pulido Valente- homem de respeito- no PÚBLICO de 27/06/10). Como, aliás, enunciou José Vítor Malheiros no PÚBLICO de 22/06/10, várias hipóteses se colocam para a falta do Presidente. Mas há uma certeza: o Prof.Cavaco Silva é o Chefe de Estado.
Depois das criticas da Igreja Católica e de alguns sectores conservadores e ultra-conservadores da sociedade à promulgação presidencial da lei que alterou o regime do casamento e permitiu o casamento de pessoas do mesmo sexo, Cavaco ficou refém dessa linha de pensamento. Mas não ficou só refém no que tange à sua dimensão (ausente) personalista. Ficou gravemente refém por motivos eleitoralistas. Com as hesitações de Pacheco Pereira e Paulo Portas no apoio, e o possível avanço de Santana Lopes a uma candidatura suportada pela direita conservadora, Cavaco lançou mão do tacticismo de Estado em abono da renovação do seu mandato presidencial. Aceita-se, em alguma medida, porquanto felizmente que o sistema lhe dá liberdade para fazer a sua campanha,que o faça. Não se compreende,contudo, quando essa sua vontade pessoal (legitima) se transpõe para o mandato que ainda exerce,desfigurando-o. Notoriamente Cavaco Silva não foi ao funeral de Saramago porque está em campanha e teve receio que a Igreja definitivamente não o apoiasse e apresentasse um candidato presidencial alternativo. Um Presidente refém de si próprio, que no 10 de Junho enalteceu a coragem nacional e atacou corajosamente o primeiro ministro presente, mas que receia perder o seu poder. Cavaco tremeu, acentuou o preconceito, sublinhou o conservadorismo e deu "tiros nos pés".
Mas Cavaco enganou-se (aceitará que se engana?) e o seu receio foi infundado. Não ouviu com a atenção devida as palavras de Bento XVI há pouco tempo em Portugal. A cegueira tolheu os seus ouvidos. O ecumenismo - no sentido amplo da tolerância - é um desígnio da Santa Sé, na linha, aliás, de João Paulo II, e o Presidente da República, com esta sua atitude institucional, contrariou-o. Cavaco ausentou-se, pensando, assim, estar a servir os católicos, pretensamente ofendidos com os gestos conhecidos e expressos por Saramago. No entanto, o que fez foi o contrário da doutrina oficial do Vaticano. Imagine-se que o Presidente, por exemplo, não recebia um Papa que visitasse o nosso país, invocando o Estado laico. Neste caso foi mais do que isso. Foi um acto baseado na intolerância pura e envolvido num "anti" ilegítimo, praticado em nome do Estado.
É conhecida a aversão de Cavaco à palavra, antagonista da tecnocracia, critica e prosaica de Saramago. Já não diria quanto às origens, na medida em que são idênticas. Quando foi primeiro ministro Cavaco assistiu ao que Sousa Lara fez contra a obra de Saramago, em nome do "interesse nacional e patriótico",e agora a cena repetiu-se mas ao nível do dever de representação, que não foi cumprido ( como bem observou o editorial do PÚBLICO de 20/0610). Mandando à cerimónia fúnebre do poeta desaparecido o Chefe da Casa Civil presidencial, Cavaco reduz o seu próprio mandato - pelo simbolismo e do ponto de vista protocolar- diminui a cultura portuguesa, mas seguramente que não beliscará sequer a memória de Saramago.
Cavaco Silva definitivamente não tem jeito nem disposição para as coisas espirituais. Não vale a pena. É verdadeiramente um professor daquela escola que desdenha do lema carpe diem. Cavaco perdeu a oportunidade de ser convocado, pelos seus concidadãos, com a interpelação "Oh Captain my Captain" e, ainda por cima, demonstrou ter um apego pecador pelo poder.Não se despediu do Nobel. Tenho muita pena de dizer, mas, se fosse rei, Cavaco Silva poderia ficar inscrito na história, na medida da alma viva que possui, como "Cavaco O Pequeno". Como irá de futuro homenagear os poetas, os escritores, os vivos e os mortos? Ser poeta é mesmo ser mais alto.
2. Uma ultima nota. Ronaldo terá celebrado um contrato com a mãe do seu filho, cujo conteúdo é alegadamente nulo face à violação de valores fundamentais suportados pela ética e a defesa da dignidade humana. Se a selecção portuguesa de futebol tivesse sido, pelo menos finalista, no mundial como se comportaria o Presidente perante esta situação? Não cumprimentaria Ronaldo?
José Assis














