A suprema artePor Nuno Santa Clara
Barreiro
Ou seja, a Conspiração também existe, mas pressupõe uma capacidade de previsão, de planeamento e meios para a sua execução que não estão ao alcance de qualquer um. O melhor exemplo é a manipulação de informações que levou à segunda Guerra do Iraque, que deve ter catapultado George W. Bush para a pouca invejável posição de ser considerado o pior Presidente dos Estados Unidos da América desde a Declaração de Independência.

Por Jornal Rostos
As notícias amplamente publicadas sobre a fuga de informações do Pentágono sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão (cerca de 92.000 documentos, o que é obra!) não pode deixar ninguém indiferente, e por várias razões.
A primeira, porque catapultou para o grande público a agência Wikileak. Organização, ou não organização, típica deste princípio de século, apareceu em Janeiro de 2007, animada por gentes de várias origens, com destaque para alguns dissidentes chineses. Como tal, a informalidade e a discrição seriam a marca da casa, e assim continua a ser. A proximidade de nome com a Wikipedia não corresponde a qualquer ligação formal.
Mas, sobretudo, a Wikileak representa um tipo de jornalismo que deixa os media até agora considerados directos Rádio e Televisão ultrapassados, pelo menos quanto ao tempo e certamente quanto ao espaço. No período da guerra do Vietname foi possível ver operações militares em directo, mas com alguns filtros; agora, nada impede a circulação de imagens em tempo real, e nenhum sistema é completamente eficaz para o controlo da circulação dessa informação.
É óptimo, e é mau. Nada impede também a difusão da mentira, da manipulação, ou mesmo do crime: basta lembrar a pornografia infantil, ou as armadilhas informáticas. Como para todas as liberdades, pressupõe-se toda a liberdade, e toda a responsabilidade; e esta última. Cá pelas nossas bandas, anda na mó de baixo.
A segunda reflexão é a seguinte: a aceitar a versão oficial do Pentágono, teria sido um simples soldado (eventualmente chateado com o chefe) que teria conseguido lançar para o exterior os tais 92.000 documentos classificados. Ou seja, como pode um humilde militar sem graduação ter acesso e divulgar ilicitamente um tal volume de material altamente sensível, ao que dizem. O dito soldado está sob prisão e em regime de isolamento, mas passou á História, pelo menos com o nome actual…
A terceira reflexão prende-se com a (para mim) estranha surpresa com que foi recebido o conteúdo dos documentos agora divulgados. Teoricamente, toda a gente deveria estar a par das irregularidades (um eufemismo) que são constantes em todas as guerras. A Guerra pode fazer surgir os mais sublimes sentimentos e as mais nobres acções, como ao amor pela Pátria, a abnegação, o heroísmo, a camaradagem; mas pode também desencadear o sadismo, a violência gratuita, a ganância e a cobardia. O tom de surpresa com que foram recebidos os documentos lembra a moral vitoriana, segundo a qual aquilo de que não se toma conhecimento oficial, não existe. Não me fale disso – e o problema está resolvido.
Não sou adepto da Teoria da Conspiração. Tenho uma fé ilimitada nas fraquezas humanas, como a preguiça, a inveja, a ganância, a incompetência e outros factores que determinam erros e atitudes que temos por hábito procurar explicar por razões lógicas, e as mais lógicas tendem a prender-se a uma lógica, como a Teoria da Conspiração. Mas, como dizem nuestros hermanos, yo no creo en brujas; pero que las hay, hay. Ou seja, a Conspiração também existe, mas pressupõe uma capacidade de previsão, de planeamento e meios para a sua execução que não estão ao alcance de qualquer um. O melhor exemplo é a manipulação de informações que levou à segunda Guerra do Iraque, que deve ter catapultado George W. Bush para a pouca invejável posição de ser considerado o pior Presidente dos Estados Unidos da América desde a Declaração de Independência.
Daqui a quarta reflexão. Segundo a Teoria da Conspiração, nada acontece por acaso à face da Terra, e actualmente até fora dela. Sendo assim, a fuga de informação não seria fortuita, mas provocada; e preparada com todos os condimentos para parecer fortuita. Como a fuga de informação que permitiu identificar uma agente da CIA, cujo marido tinha contestado a política do Governo. Nesse caso, o interesse político esteve acima da Segurança Nacional.
Recentemente, publiquei no Rostos um texto (Cedant arma togae) em que abordava a esperada mudança de orientação estratégica americana decorrente da substituição do general McChrystal pelo general Petraeus, no comando das forças no Afeganistão. Ora, essa mudança deve assentar na alteração da linha dura pela linha “soft”, com medidas que o general Petraeus tinha já aplicado no Iraque e que têm uma certa semelhança com a Acção Psico-Social por nós aplicada na Guerra Colonial.
Qual quer alteração de fundo pressupõe uma vaga de fundo, e que melhor do que um escândalo público para provocar e justificar um corte com o passado?
Se foi a mão da Divina Providência, os Serviços Secretos ou o despeito de um soldado que provocou a fuga de informação, provavelmente nunca se saberá ao certo; mas se foi friamente calculada, estamos perante um feito notável
Chama-se a isso a suprema arte da inconfidência.
Nuno Santa Clara














