Um Texto por SakinehPor Florbela Viegas
Barreiro
As mulheres são as que sofrem uma crueldade maior, pois o ritual consiste em enrolá-las em lençois brancos e enterrá-las até aos ombros, para que lhes sejam atiradas pedras grandes, até a morte, a fim de que o suplício seja maior.

Por Jornal Rostos
Como dizia o poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, «lutar com palavras é a luta mais vã, elas são muitas, eu pouco».
A intenção daquele que escreve, é revelar, sobretudo, as dificuldades da criação de um texto literário que, ao contrário do que se possa imaginar, não resulta de um estado de súbita inspiração, porque é, na maior parte das vezes, um acto premeditado, de luta e de reflexão difíceis, sempre em busca dos termos correctos, sonoros e plausíveis.
A maior parte das vezes, o esboço de um tema faz-me correr atrás de palavras que me parecem sempre muitas perante o pouco que eu sou, diante daquela infinidade de que elas são capazes.
Há aqueles que pensam de outro modo. Alegam que são as palavras que normalmente os escolhem.
Hoje escrevo para dizer que não fui escolhida pela beleza da criação literária, mas tão somente pelo drama de uma mulher, a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani e, por esse motivo, fui à caça de palavras que me permitissem tentar traduzir o sentimento que o caso me suscita.
Sakineh é aquela iraniana de 43 anos, viúva, mãe de dois filhos, condenada à morte por apedrejamento, no Irão, em virtude de ter cometido um suposto adultério, anos após a morte do marido, com uma confissão obtida através de 99 chicotadas nas costas.
A possibilidade de execução dessa sentença mais do que bárbara, tomou conta dos meus pensamentos e dos meus sentidos.
Entretanto, as últimas notícias dão conta que, devido à série de manifestações levadas a cabo em diversos países, por Organizações Internacionais defensoras dos Direitos Humanos, as autoridades do Irão comutaram a pena de morte por apedrejamento em morte por enforcamento.
Quanta benevolência!
Sabe-se que o absurdo Código Penal Iraniano prescreve a morte por apedrejamento em casos de adultério e outros delitos, segundo interpretações arcaicas e deturpadas do Corão e das imperiosas palavras do Profeta Maomé.
Não tento sequer entender ou compreender tamanha violência, tamanha ignorância, tamanho atraso civilizacional. Assim, creio que não me parece haver nada de mais inaceitável do que regimes dessa natureza, que punem de forma tão terrível.
O episódio Sakineh não é único. Desde Janeiro de 2010 foram condenadas à morte e executadas por lapidação, 115 pessoas. Actualmente, outras 25 aguardam, detidas, a morte por apedrejamento no Irão, sendo que a maioria são mulheres e homossexuais.
As mulheres são as que sofrem uma crueldade maior, pois o ritual consiste em enrolá-las em lençois brancos e enterrá-las até aos ombros, para que lhes sejam atiradas pedras grandes, até a morte, a fim de que o suplício seja maior.
É esta barbárie que desperta o sentido crítico e eleva o nível de consciência de todos nós, seres humanos civilizados, ainda que, por vezes, solipsisticamente estejamos mais preocupados com aquilo que se passa apenas no nosso próprio espaço.
Tomar conhecimento de que ainda existem pessoas no mundo que podem ser condenadas a morrer de forma tão desumana e lenta, sob uma saraivada de pedras resultante de uma sentença condenatória de um Estado, faz-nos reflectir e chegar à conclusão de que as culturas são relativas mas a moral é absoluta e a vida humana inviolável.
Não é dado à relatividade cultural impor a degradação da dignidade humana.
O Irão merece, portanto, todos os tipos de repúdio, pressão e sanções internacionais, em razão de tudo isso.
Florbela Viegas














