A cultura da florestaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
As vagas de incêndios que, ano após ano, vêm assolando o nosso País deveriam merecer uma séria reflexão a todos nós.
Não aquela reflexão à portuguesa, com início em 1 de Julho e fim em 31 de Agosto, entrecortada de imagens televisivas de serras a arder, de bombeiros e populares a correr, de choros e lamentações, de paisagens calcinadas, de políticos de semblante carregado, de ecologistas contabilizando passarinhos mortos.
Mas sim a reflexão sobre as causas profundas dos incêndios. Porque desde sempre as florestas e as matas arderam, e muitas vezes sem que a essa ocorrência tenha sido dado o cunho trágico que agora se dá.
Cabe aqui recordar um autor francês, cujo nome não me lembro, também preocupado com a floresta. Lamentava-se ele que a França tivesse uma superfície florestal proporcionalmente inferior à de outros países, nomeadamente a da Alemanha. E adiantava uma explicação: para o francês médio, e sobretudo para o camponês, a floresta era algo de sinistra memória. Dela saíam feras, bandidos, assombrações. Em contrapartida, ele não podia entrar nas florestas: estas eram coutos de senhores feudais, reservas de caça em que os plebeus não podiam entrar, nem para recolher subprodutos como a lenha, frutos silvestres, ou cogumelos. Assim a tenebrosa floresta era a barreira, o símbolo da ordem antiga, a ameaça que seria natural destruir.
Mas não para os alemães. Para estes, a floresta era o meio natural de onde emanava a sua mitologia, onde habitavam os deuses, era um local a ser protegido, independentemente do seu proprietário. O culto da floresta chegara mesmo ao século XX, e a medida tomada pelo governo de Hitler, em nacionalizar a floresta, não foi contestada; Göering foi nomeado Jägermeister, o encarregado das florestas, e o fim do regime nazi não ditou a sua privatização; agora são federais, estaduais ou comunais, e ainda hoje as florestas privadas são a excepção.
Interpretação exagerada, não fundamentada, ou mesmo disparatada? Talvez. Mas tem a vantagem de, mesmo laborando em erro, encarar a floresta como um valor cultural.
Neste nosso Portugal, a extinção dos vínculos (morgadios e capelas) e das ordens religiosas, a partir de 1834, dividiu a grande propriedade, e reduziu as coutadas, que apenas algumas grandes Casas podiam manter; em consequência, a floresta foi-se reduzindo, e olhada como um entrave ao cultivo das terras ou ao pastoreio. Foi preciso chegar ao século XX para ver surgir os primeiros esforços sérios de reflorestação.
Não sem resistências locais, já glosadas em livros e até filmes; mas a reflorestação teve sempre aquela subtil marca de centralismo, como algo feito contra a vontade dos povos.
Daí que os fogos têm tradicionalmente sido encarados como tragédia quando destroem casas ou vidas, ou terrenos cultivados; e quanto ao resto, fica a impressão de ser apenas um contratempo, que o tempo há-de resolver.
Só que estamos no século XXI, o do fim do petróleo, o das energias renováveis, o das preocupações ecológicas, o do combate à poluição, o da disputa do oxigénio. E aquele património até agora considerado menor, a nossa floresta, vai ganhando importância, vai poder ser contabilizado, vai poder ser uma garantia de futuro.
Se deixarem!
Não há, praticamente, em Portugal, fogos espontâneos. Se são provocados intencionalmente ou por negligência, é uma questão menor, uma vez que, em qualquer dos casos, é passível de procedimento criminal. O problema está na ligeireza com que se tratam estes casos, para mim fruto da tal postura cultural que não assumiu ainda o problema da floresta na sua plenitude.
Mas tudo muda (esperemos!) como mudou a atitude do Homem perante um líquido escuro, mal cheiroso e poluidor a que se chama agora Ouro Negro. Temos que aprender a importância do Ouro Verde – esse, nosso, à porta de casa.
Não esperemos milagres enquanto essa revolução cultural não for feita; e, para isso, é preciso explicar que não se trata apenas de salvar passarinhos, mas de garantir a sobrevivência do Homem.
Porque, por agora, o amor à higiene no interior dos automóveis é mais forte que a nossa sobrevivência: para não sujar o cinzeiro, manda-se a “beata” pela janela, como atestam as centenas de focos de incêndio à beira das estradas.
Porque, por agora, um pirómano reincidente e contumaz continua nas suas actividades, Verão após Verão. Será que, se incendiasse uma refinaria de petróleo, seria tratado com a mesma condescendência?
Porque, por agora, a preocupação com os fogos continua a ser um fenómeno cíclico, previsto nos astros, com início em Junho e fim em Setembro; só falta a abertura solene, com discursos e corte de fita.
Porque, por agora…
Porque esta postura só mudará quando for assumida aquela atitude de enterrar o passado e caminhar para o futuro com as escolhas lógicas que este impõe, deixando de lado romantismos e bucolismos, que mais não fazem que perpetuar aquele doce sentimento do deixa andar.
Nuno Santa Clara














