O que tem que ser tem muita forçaPor António José Carvalho Ferreira
Barreiro

Por Jornal Rostos
É com grande mágoa que vejo esfumarem-se as esperanças que muitos barreirenses da minha geração (nascida nos anos 50) e não só, chegámos a alimentar de ver no nosso tempo de vida uma Ponte para Lisboa. Assistimos à inauguração de duas – A “Salazar” (depois “25 de Abril”) em 1966 e a Vasco da Gama em 1998 e pensámos, mal refeitos da escolha da localização desta última, que antes dos trinta anos da praxe, iríamos ver erguer-se a Ponte entre o Barreiro e Lisboa a que por todas as razões e mais algumas, nos julgamos com direito, mais que não fosse como forma de indemnização histórica para as gerações futuras do ”pão que o diabo amassou” e foi comido deste lado, com toda a degradação ambiental que acarretou e ainda acarreta para que a capital pudesse viver desafogadamente, sempre “Lisboa, a da vida boa”.
Hoje, a desilusão, o Governo mandou anular o concurso que determinava a adjudicação da empreitada da Ponte e do TGV por incapacidade financeira, aliás consabida e avisada por vários actores da cena política de um bom par de anos a esta parte, sempre com o obstinado desmentido do Governo em funções reiterando em campanha eleitoral como firme, não apenas a intenção, mas a inequívoca decisão, de avançar com as grandes obras até que e como ”o que tem que ser tem muita força”, assistimos a este anúncio que adia para as calendas ou para “o dia de S. Nunca à tarde”, a concretização do prometido.
Entendo ser nosso dever fazer um balanço de como se chegou aqui com “uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma” e reafirmar que não por “localismo” ou “paroquialismo”, a Ponte é uma necessidade para a Região e para o País e viria reequilibrar a situação relativa na Área Metropolitana em que o Corredor Central, sendo o segundo em termos populacionais, é o único que não permite a ligação terrestre a Lisboa, criando uma situação de desequilíbrio persistente que muito continuará a contribuir para o definhamento urbano da região do Barreiro.
Dir-me-ão que quantidade não é qualidade e, por vezes, antes pelo contrário. É verdade, mas sem a necessária massa crítica e ficando o Barreiro num beco sem saída geográfico, que não é local de passagem, se se continuar a ter que ir para sul para rumar a norte e a não promover a integração urbana desejada com a cidade das duas margens, qual será a atractividade económica do Barreiro para o sector produtivo, que é o que faz falta?
È também um facto que os poderes públicos locais tiveram responsabilidades na preterição do Barreiro para a 2ª Travessia, pois a ameaça subliminar da “alteração sociológica” levou a força maioritária do concelho a uma total passividade, que em abono da verdade se diga, contrasta fortemente com a posição da actual edilidade, correndo, no entanto, o risco de ser tarde de mais. Idêntica atitude não tiveram as câmaras do Montijo e de Alcochete que cedo se “borrifaram”, e muito bem diga-se de passagem, para os pruridos “ecológicos” de suposta protecção ao Estuário do Tejo, que mais tarde vieram também a não ser suficientes para atrapalhar a construção do Freeport.
Rejubila a direita que só concede aos “índios da Margem Sul” o direito de entrar na cidade, que toma por coutada, aos magotes cabisbaixos como “metecos” para trabalhar, de preferência “invisíveis”, convenientemente debaixo do chão, agora que a rede de Metro chega (e ainda bem) à boca dos ferrys e a Baixa é só para os Turistas e, já agora, para os pequenos “vígaros” que lhes querem impingir, gadgets de contrafacção e caldos Knorr por haxixe.
Assim, “arquitectas paisagistas” com os nomes sonantes do costume (sempre os mesmos), já não clamarão contra a “desvalorização dos imóveis com vista para o Tejo” por causa do “impacto visual” da Ponte e os jornais “voz do dono” já não precisarão de publicar na 1ª página montagens “infoterroristas” desse autêntico “monstro marinho” a emergir das águas.
Em contrapartida perderão a Área Metropolitana, o próprio país e sobretudo o Barreiro, que terá extremas dificuldades em reencontrar a sua centralidade urbana, perdidas que foram as valências que fizeram a sua importância e que significaram muito mais do que a mera equidistância entre Pontes.
Por último não posso deixar de verberar a ligeireza demagógica com que, por cá, se acabam por ganhar eleições. Não acreditando que o mundo consiga mudar assim tanto em duas semanas, invoco um velho mestre alemão que muito prezo, quando avisa que é pecado “fazer promessas que sabemos antecipadamente não estar em condições de cumprir”.
É feio, muito feio!
António José Carvalho Ferreira














