O Barreiro e os seus Cemitérios (I)Por Nuno Santa Clara
Barreiro
Conjugando este número com o tempo de consumpção dos corpos, é fácil prever que qualquer alargamento dos Cemitérios é uma solução a prazo, e que há que encarar alternativas viáveis e aceitáveis.

Por Jornal Rostos
O culto dos mortos é talvez a mais antiga manifestação de actividade humana de que há vestígios até aos nossos dias. Pirâmides gigantescas, colinas artificiais, simples covas ou modestas sepulturas cavadas na rocha, todas estas manifestações apontam para o respeito pelos antepassados, aqueles que nos legaram o Mundo como o conhecemos, ou seja, que acumularam o saber e que construíram o património que nos permite ser o que somos.
Se cada geração acrescenta – esperemos – um novo passo para o progresso da Humanidade, não é menos verdade que cada uma delas tem uma dívida para com a geração que a antecedeu, e isto reflecte-se nesse culto que vai persistindo.
Não interessa a religião, ou a ausência dela: mesmo os ateus mais militantes são capazes de erguer um mausoléu a uma das suas figuras mais marcantes, demonstrando quanto peso tem a carga atávica do culto dos mortos.
O Barreiro tem cemitérios bem antigos. Ainda recentemente, num trabalho colectivo de várias escolas, baseado num mapa do Concelho de 1840, lá estavam bem patentes o Cemitério do Barreiro, então situado no actual “Jardim dos Franceses”, e o Cemitério de Palhais, no sítio onde ainda hoje está, ainda que ampliado.
Actualmente, são três os Cemitérios do Concelho: Vila Chã, Lavradio e Palhais. Será que correspondem ao que deles espera, ou poderia legitimamente esperar, a população do Barreiro?
A meu ver, não.
O do Lavradio limita-se praticamente a receber quem lá tem sepultura perpétua, ou seja, adquirida.
O de Palhais conjuga a parte antiga, com sepulturas perpétuas, com a parte nova, em que só são aceites sepulturas temporárias, e está perto da saturação.
O da Vila Chã está a sofrer obras de ampliação, e permite encarar o futuro próximo com um certo desafogo. No entanto, sublinhe-se o “futuro próximo”, depois veremos porquê.
Falar de cemitérios é falar de coisas desagradáveis, mas inevitáveis e incontornáveis. As características do Barreiro fazem com que a decomposição dos corpos leve seis ou mais anos; não é um dado elaborado por cientistas, é uma constatação dos coveiros que têm de os desenterrar, e à mão.
Estamos longe, portanto, do mínimo legal de três anos para uma exumação. Assim sendo, considerando que o Barreiro tem quase 80.000 habitantes, e que se trata de uma população envelhecida, é de supor que a média de inumações se mantenha pelos próximos anos. Pelos últimos dados, a média anda pelas 1,6 inumações por dia, nos três Cemitérios, o que dá cerca de 580 por ano.
Conjugando este número com o tempo de consumpção dos corpos, é fácil prever que qualquer alargamento dos Cemitérios é uma solução a prazo, e que há que encarar alternativas viáveis e aceitáveis.
Novas soluções terão de ter a aceitação da população, pelo respeito que merecem os seus mortos, por todos os valores em que acreditam e pelo princípio básico da participação dos cidadãos pelo menos nas grandes opções da vida da comunidade, princípio esse ainda mais premente quando se trata das autarquias, em que a proximidade é a base das relações entre cidadãos.
Voltaremos a este assunto.
Entretanto, o actual aspecto dos nossos Cemitérios, e em particular o de Vila Chã, não está de molde a seguir por inteiro a tradição de respeito pelos mortos, de que atrás se falou. Não só por problemas de organização (há meses que decorre um processo de admissão de pessoal) mas de outras questões legais.
As sepulturas, a sua construção e manutenção, são encargo das famílias, só podendo a Câmara intervir quando a campa for considerada abandonada, o que é um processo longo.
Assim, muito do aspecto de desleixo deve-se a motivos alheios à autarquia.
Foi agora adjudicada nova empreitada de limpeza geral do Cemitério de Vila Chã; contribuirá decerto para melhorar o aspecto, mas as questões de fundo mantêm-se.
A eles voltaremos.
Nuno Santa Clara














