República(s)Por Rui Garcia
Moita

Por Jornal Rostos
O centenário da Revolução Republicana tem sido uma oportunidade para resgatar a história do primeiro quartel do século XX do limbo para que foi remetida por meio século de ditadura e um tempo actual em que o ensino da história moderna não parece ter a atenção necessária.
E assim chegamos ao actual desconhecimento e mistificação em torno da história dos últimos anos da monarquia e da I República. Neste pasto fértil proliferam leituras da história feitas à medida da batalha ideológica de hoje. Exemplos? A alusão a um pretenso “ideal republicano” despido de conteúdo, despojado de opções de classe, ou a recorrente referência à “instabilidade” que caracterizaria a I República. Não será que, ontem como hoje, instabilidade não é senão o nome que as classes dominantes dão à sua incapacidade de apaziguar a luta dos trabalhadores e do povo?
A monarquia era odiada, porquanto simbolizava a origem da miséria e da opressão das classes trabalhadoras e do atraso do país. As grandes massas do proletariado em formação, não tinham ainda alcançado a consciência que lhes permitia ver que a monarquia era o símbolo, mas não a essência, não a raiz, dos seus males. A verdadeira causa da sua condição residia (reside) no sistema económico e social, na sociedade dividida em classes, numa palavra, no Capitalismo.
O processo de afastamento da I República, ou melhor dizendo, do(s) partido(s) republicanos e dos seus governos, relativamente às massas populares, particularmente as camadas intermédias da população urbana e à classe operária em crescimento, que foram o seu apoio fundamental no derrube da monarquia, pode ser interpretado à luz do facto de que o sistema sócio-económico, o capitalismo, era para o Partido Republicano e para a classe social que representava – a pequena e média burguesia, essencialmente – intocável. A própria alta burguesia, o grande capital de que é exemplo Alfredo da Silva, monárquico assumido, mostrou-se tolerante para com o novo regime, na estrita medida em que os seus privilégios permaneceram intocáveis.
O que os republicanos buscavam com o derrube da monarquia era a modernização do país e a libertação da teia que sufocava as forças produtivas, após concluírem que para tal era indispensável a eliminação do regime parasitário e decadente incapaz de enfrentar os graves problemas económicos e sociais do país, um regime vassalo da Inglaterra, onde persistiam inúmeras sobrevivências feudais traduzidas designadamente no poder da nobreza e do clero.
Outra era a República ambicionada pelos trabalhadores. As degradantes condições de vida acentuavam entre o povo trabalhador a urgência da mudança de regime. O Partido Republicano foi capaz de capitalizar o desenvolvimento da luta social e mobilizou o apoio popular à Revolução, que foi aliás decisivo no seu triunfo. Os trabalhadores esperavam da República a liberdade, a justiça social, o desenvolvimento, que preenchiam o discurso republicano. No entanto, não era essa a natureza do Partido Republicano, e logo desde o seu início a República ficou marcada pela repressão do movimento operário e sindical.
A República alcançada não foi a República ambicionada pelo povo trabalhador. O proletariado não teve condições de influir no rumo da Revolução, quer pela sua reduzida expressão num país ainda essencialmente agrário, quer porque o movimento sindical era dominado pela corrente anarquista, que desprezava a intervenção e representação políticas. Só com a fundação do Partido Comunista, em 1921, a classe operária portuguesa cria o seu instrumento de intervenção política autónoma.
A Revolução de 1910 foi, apesar do atrás dito, mais um marco importante na história do progresso do povo português e são diversos os avanços civilizacionais que proporcionou. O marco seguinte foi a Revolução de Abril, que ocupa por direito próprio o lugar cimeiro na História do povo português.
Quando será o próximo?
Rui Garcia
Membro da Comissão Concelhia da Moita do PCP














