Em louvor do Tim-TimPor Nuno Santa Clara
Barreiro
Ora vejamos: que a crise é real, não há dúvida. Mas, cada vez que há uma boa notícia para Portugal, aparece uma agência a anunciar a catástrofe. Logo, os juros da dívida, que haviam com toda a lógica que baixar, sobem!
Ninguém se pergunta se aquela agência… eventualmente, enfim… remotamente, quer dizer… possivelmente… ganhará alguma comissão com isso. Porque aumentar o juro da dívida portuguesa 1% que seja, é muito dinheiro.

Por Jornal Rostos
A minha geração é a da banda desenhada, aquela de bonecos mais ou menos elaborados, que contavam histórias, divertiam as pessoas, e até divulgavam cultura. Quão longe vão esses tempos.
Ora, uma dessas BD era o Tim-Tim, herói de todas as causas justas, acompanhado por alguns anti-heróis, dos quais se destacavam os detectives Dupont & Dupond, famosos pela sua inépcia e pela substituição do raciocínio por um conjunto de lugares comuns, certos quanto à forma, mas perfeitamente inadequados quanto às circunstâncias.
Dentro esses chavões havia um princípio férreo; cherche le crime à qui profitte, ou seja, procura a quem aproveita o crime.
Devíamos estar habituados – e vacinados – contra certo tipo de campanhas. De tempos a tempos, algum laboratório descobre que as agulhas de pinheiro são boas para a caspa – e lá vai um formigueiro de gente destruir os pinhais para resolver um problema para o qual o sabão azul e branco seria melhor remédio. Ou que o estrume de porco é bom para o reumatismo – e toda a gente se lamenta que tenham desaparecido as criações de porcos, não para a nossa alimentação, mas para o alívio dos seus males. As sardinhas passaram recentemente de inimigo público a panaceia universal; o azeite, de veneno a remédio milagroso, e assim por diante.
Quase ninguém repara que tais investigações são muitas vezes patrocinadas por entidades interessadas, e que de científicas só têm o nome. Por exemplo, nos Estados Unidos, o vinho era considerado um veneno – até que a produção vinícola da Califórnia deu origem a novos estudos que provavam que o vinho tinto, consumido com moderação, até era bom para o coração. Ou os aviões bimotores não podiam ser certificados para voos transatlânticos – até a Boeing pôr no mercado o modelo 767.
Claro que quem não tem recursos dificilmente poderá pagar uma campanha destas, e os pequenos estão condenados a ser portadores de todos os males.
Ultimamente, com a crise, as campanhas viram-se para o lado das finanças. E o método é o mesmo: quem tem o poder, tem o remédio.
Ora vejamos: que a crise é real, não há dúvida. Mas, cada vez que há uma boa notícia para Portugal, aparece uma agência a anunciar a catástrofe. Logo, os juros da dívida, que haviam com toda a lógica que baixar, sobem!
Ninguém se pergunta se aquela agência… eventualmente, enfim… remotamente, quer dizer… possivelmente… ganhará alguma comissão com isso. Porque aumentar o juro da dívida portuguesa 1% que seja, é muito dinheiro.
Por outro lado, o investimento para destabilizar Portugal, Grécia ou Irlanda é muito menor que o necessário para obter o mesmo efeito na Alemanha ou na França.
Mas por cá ninguém se preocupa com isso. Aliás, é mais fácil traduzir que pensar.
Pois, sendo assim, voltemos aos Dupont & Dupond: a quem aproveita o crime?
Lá sermos esbulhados, é uma constante histórica e a fatalidade dos pequenos; mas daí a aceitar os aplausos dos arautos da desgraça, isso não!
Nuno Santa Clara














