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Quotidianos

Da linguagemPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Todas as profissões têm o seu vocabulário próprio, mais erudito ou mais chão, que é normalmente empregue, não só para entendimento entre os do mesmo ofício, mas também para intimidar os leigos. E, por uma matemática subtil, o valor da factura é proporcional ao hermetismo da linguagem. Ou seja, quanto mais difícil de perceber for a avaria do carro ou a diligência legal, mais cara é a reparação ou a consulta.

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Da linguagem Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Segundo rezam as crónicas, ao rei D. Dinis se deve que o português passasse a ser a língua oficial, e como tal, os documentos régios passaram a ser lavrados em linguagem corrente. Até aí, os documentos eram lavrados em latim.
Ora, atendendo a que só uma escassa minoria sabia ler, e que, dentro desses, só outra escassíssima minoria falava latim, fácil é compreender que isso de diplomas legais só estava ao alcance de uns tantos letrados, que tinham o quase ilimitado poder de ler, e sobretudo interpretar, os textos oficiais.
Confortável situação, sem ameaças de contestação ou de desemprego. Podemos imaginar a reacção dos letrados a esta medida revolucionária de D. Dinis, o tal que, segundo a voz popular, fez tudo quanto quis.
Mas, pelo menos num caso, houve um lado bom dessa exclusividade do conhecimento. Recordemos a recriação, feita por Alexandre Herculano nas Lendas e Narrativas, sobre a “interpretação livre” feita pelo Doutor João das Regras de um documento antigo, de modo a legitimar a situação de D. João, Mestre de Avis, candidato ao trono. Dessa manipulação resultou estar eu agora a escrever em português, e não em castelhano.
Todas as profissões têm o seu vocabulário próprio, mais erudito ou mais chão, que é normalmente empregue, não só para entendimento entre os do mesmo ofício, mas também para intimidar os leigos. E, por uma matemática subtil, o valor da factura é proporcional ao hermetismo da linguagem. Ou seja, quanto mais difícil de perceber for a avaria do carro ou a diligência legal, mais cara é a reparação ou a consulta.
Não é exclusivo lusitano. Qualquer dos leitores que domine o francês ou o inglês, pode tentar ler um texto legal numa dessas línguas, e ficará esclarecido neste ponto.
Por isso, a recente decisão governamental de “traduzir” para português corrente a legislação a publicar só tem paralelo na História com a revolução de D. Dinis. E não faltou quem viesse logo a público protestar contra tal medida.

Mas, do alto do meu pessimismo militante, posso tranquilizar os aflitos, pelas razões seguintes:

• As revoluções, no nosso Portugal, tendem a não atingir os seus objectivos;

• D. Dinis fez tudo quanto quis, e nenhum dos governos de hoje o faz;

• Quem fizer as “traduções” vai apenas criar uma nova linguagem, que a prazo será tão hermética como a precedente.

Nuno Santa Clara

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