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Quotidianos

República e SocialismoPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Dos ideais socialistas utópicos da centúria de Oitocentos resultaram três correntes políticas principais, depois das divisões no fim desse século :anarquistas, sindicalistas revolucionários (mais tarde anarco - sindicalistas ) e socialistas.

Nos princípios de Dezembro de 1909, é publicado o primeiro número do jornal Ávante!, editado pelo 3º Centro Socialista do Barreiro, fundado em Maio desse ano por Ladislau Batalha e sua mulher, Ernestina Costa, também fundadora da União Fraternal das Mulheres do Barreiro.

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República e Socialismo Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

O Ávante!, constituiu-se como porta-voz do ideário socialista na região, e proclama os princípios da razão e da justiça, da igualdade, da liberdade e da fraternidade.
São os desígnios programáticos do Partido Socialista Português, fundado em Lisboa em 1875,e que como proclama o Ávante! Estão claramente desligados: …«quer do Partido monárquico, representado pela mais alta finança, pela burocracia, pelo exército e pelo clero (…)quer do Partido Republicano, pois Monarquia e República oferecem por modo igual, as mesmas arrogâncias de privilégio». [6]
Existe um claro «part-et-prie» no discurso do «quinzenário» nos primeiros tempos, pois logo a seguir afirma : «Dentro das sociedades actuais com a preponderância da burguesia capitalista, tão mal se está numa república como numa monarquia».[7]
Ou seja, quando se esperaria um ataque cerrado à monarquia e aos partidos que a suportam, que dominam a vida política local, são os republicanos o alvo mais visado, certamente porque os discurso destes atrai as massas operárias da vila, disputando aos socialistas e o seu apoio.
Encontramos uma afirmação perene do desiderato socialista num outro artigo do Ávante! :…«a nova força que se levanta austera e digna sobre as ruínas da burguesia
(…)essa força augusta já também se acentua, respeitável e digna, nas terras de Portugal. Reside no povo trabalhador que principia em todos recantos do País a cerrar fileiras, e chama-se Socialismo.» [8]
Esta crença de Ladislau Batalha, que dirigiu e editou todos os vinte e cinco números publicados, na inevitabilidade do progresso humano, no sentido imparável de atingir o socialismo, sendo portanto a revolução uma necessidade social, não foi partilhada até ao fim por alguns ex-chefes socialistas proeminentes, como Teófilo Braga, Bernardino Machado, Magalhães Lima ou Alexandre Braga, que se afastaram do movimento socialista e se passaram para o republicanismo, nos alvores do século XX.
O discurso socialista, melhor estruturado, mais consistente, mostrou-se contudo mais inoperante, como refere Thereza Aires Campos no seu aprofundado estudo/análise ao jornal publicado entre Maio de 1909 e Novembro de 1910 :…«O maniqueísmo dos republicanos, que culpam a monarquia e o clericalismo de todos os males e colocam a República como fonte de felicidade, tornava-se mais atractivo que o determinismo socialista, onde se oferece um inimigo, a burguesia, com demasiados rostos». [9]
Com o triunfo em 5 de Outubro, o Centro Republicano Dr. Estevão de Vasconcelos, absorveu a maior oarte dos socialistas barreirenses,arrastados no entusiasmo da vitória .A posição do Partido Socialista, deliberada no Conselho Central, em 11/10/1910, é dar todo o apoio à consolidação da República. No mesmo sentido se pronuncia o Ávante!, Reflectindo uma certa ambiguidade, ao anunciar que :…«no interesse exclusivamente partidário, nós estamos e continuaremos ao lado da burguesia republicana». [10]
No entanto , do ponto de vista doutrinário, o jornal mostra-se claramente contra a livre concorrência, como uma das razões principais da desigualdade entre os homens, ao contrário do liberalismo que a considera um factor necessário ao desenvolvimento.
Ladislau Batalha, no Ávante nº13, de 1/5/1910, ataca os «truts» industriais em crescimento, como é o caso da Companhia União Fabril de Alfredo da Silva, apontando-os como instrumentos da exploração capitalista sobre a grande massa das forças laboriosas.
Apesar da evidente utopia que impregna toda a sua ideologia, no discurso do Ávante!, que pugna por um socialismo revolucionário em que a greve e a agitação de rua seriam armas importantes, está claramente presente o pensamento marxista, pelo que :«O objectivo final dos socialistas seria o Socialismo, no qual as diferenças sociais e a miséria humana desapareceriam(…)numa transformação universal da sociedade humana, sob o signo da igualdade e da fruição da riqueza por todos os trabalhadores, para a qual é necessária a destruição total do capitalismo». [11]
Só muitos anos mais tarde, em 1920, no âmbito do 5º Centro Socialista do Barreiro, se voltaria a publicar um jornal socialista, o Acção, mais voltado para a defesa dos interesses locais, com uma vertente cultural e formativa, mas menos politizada, tendo sobrevivido ao fim do Centro, e à passagem dos socialistas pela Câmara Municipal do Barreiro (1920/1922), até 1924.

[6] Ávante! ,nº8, de 27 de Fevereiro de 1910
[7] » nº 9, de 13 de Março de 1910
[8] » nº2, de 19 de Dezembro de 1909
[9] Thereza Aires Campos, O Ávante! (1909-10)-Exemplo dum jornal socialista local, Um Olhar sobre o Barreiro, nº4-III Série, Junho de 1996.
[10] Ávante!,nº25, de 19 de Novembro de 1910
[11] Thereza Aires Campos, Ibidem

Armando Sousa Teixeira
Escritor e investigador da História local

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