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Quotidianos

O Barreiro e os seus Cemitérios (II)Por Nuno Santa Clara Gomes
Barreiro

Com a progressiva laicização da sociedade, o recurso à cremação foi-se vulgarizando, e hoje uma percentagem sempre crescente de funerais faz-se recorrendo à cremação.
No Barreiro, como se disse, o projecto original de construção de um crematório na Vila Chã foi abandonado, e nas obras a decorrer no Cemitério apenas está prevista a instalação de um forno pirolítico, para destruição de resíduos.

Na verdade, só se justificaria um forno crematório se se tratasse de um projecto intermunicipal, única forma de rentabilizar um investimento necessariamente vultuoso.

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O Barreiro e os seus Cemitérios (II) Por Nuno Santa Clara Gomes Barreiro

Por Jornal Rostos

Como se disse no primeiro artigo desta série, o Barreiro tem uma população rondando os 80.000 habitantes, e uma média de 1,6 inumações por dia.
Este número não corresponde exactamente ao total de óbitos registados no Concelho, uma vez que, por um lado, há quem recorra à cremação, que é feita fora do Concelho, e, por outro lado, há quem disponha de sepultura perpétua e pode decidir quem lá pode ser inumado, seja ou não residente no Barreiro. Mas estes desvios não têm grande significado, e não alteram as projecções que têm sido feitas para as necessidades do Concelho para os próximos anos, de modo a encontrar ou criar os espaços destinados a tratar dos nossos mortos.
E a questão do espaço é fulcral, não só no Barreiro como em todo o País e mesmo além dele, e tem levado à procura de novas conceitos de como lidar com os mortos, e consequentemente para a concepção e utilização dos cemitérios.
Mas, qualquer que seja a solução, há que ter em conta que cuidar dos mortos não é um mero acto de logística – embora por vezes assim aconteça, sobretudo no caso de morte em massa. Quando da última “peste” que houve em Portugal, a chamada febre pneumónica, ou gripe espanhola, que começou em 1918, o número de enterros e a vulgarização da morte fez embotar os sentimentos.
Além das epidemias, a morte em massa ocorre quando há guerra. Mas mesmo aí o respeito pelos mortos tem vindo a sobrepor-se à questão logística. Basta lembrar que os cemitérios militares, tal como hoje os conhecemos, tiveram origem na I Guerra Mundial, quando as enormes massas de conscritos deixaram de poder ser tratadas como números, pois a guerra passou a ter um cunho nacionalista e ideológico, e o mínimo que se podia fazer era homenagear os mortos, para os justificar, e também para moralizar os vivos.

Porque o tratamento anterior era bem diferente. Por exemplo, em Elvas existe um pequeno cemitério militar inglês, num dos baluartes da muralha da cidade, estando lá sepultados meia dúzia de oficiais, caídos na conquista de Badajoz; quanto às centenas de sargentos e praças, mortas no mesmo combate, foram enterradas em vala comum no próprio campo de batalha; ou seja, eram um problema logístico…
O autor Douglas J. Davies, considerado internacionalmente como uma referência na matéria, analisa no seu livro História da Morte a atitude das pessoas perante esse momento supremo, e os ritos funerários a ela ligados.
Uma das questões tratadas é a da cremação, que segundo ele começou a ser aceite no período de 1889 a 1910; assim, no princípio do século XX, esta prática era já corrente, se bem que apenas praticada por uma pequena minoria.
Cabe aqui uma pequena observação: a cremação havia sido praticada na Europa, até pelos Romanos, tendo depois caído em desuso.
E também em 1915, segundo Luc Capdevilla e Danièle Voldman, no seu livro Nos morts, sobre os mortos na guerra, foram feitos em França estudos e experiências sobre a possibilidade de cremação do elevado número de cadáveres que a guerra moderna produzia; era uma preocupação de saúde pública e logística, que não teve seguimento.
Ainda segundo Douglas J. Davies, na Inglaterra a cremação sobrepôs-se ao enterro tradicional a partir dos anos sessenta, e no início do século XXI, 70% dos britânicos falecidos foram cremados.

Nos países de maioria católica houve maior resistência à mudança, até porque a cremação não se coadunava com o ritual estabelecido: não se “entregava o corpo à terra”, no “chão sagrado”, e o crematório não era uma capela, mas uma construção laica. Que a cremação impedisse a Ressurreição, é mais um argumento para o Egipto dos faraós do que para um cristão.
Com a progressiva laicização da sociedade, o recurso à cremação foi-se vulgarizando, e hoje uma percentagem sempre crescente de funerais faz-se recorrendo à cremação.
No Barreiro, como se disse, o projecto original de construção de um crematório na Vila Chã foi abandonado, e nas obras a decorrer no Cemitério apenas está prevista a instalação de um forno pirolítico, para destruição de resíduos.
Na verdade, só se justificaria um forno crematório se se tratasse de um projecto intermunicipal, única forma de rentabilizar um investimento necessariamente vultuoso. Voltando ao número de 1,6 funerais /dia, partindo da hipótese de que um quarto das famílias optaria pela cremação, isso daria 0,4 por dia, ou seja apenas 8% da capacidade de um crematório, se o projecto se limitasse ao Concelho do Barreiro.
De momento, existe a possibilidade de recorrer aos crematórios de Lisboa, ou aos de Beja ou de Ferreira do Alentejo. Mas brevemente entrará em funcionamento um crematório no novo Cemitério Municipal da Câmara de Sesimbra, na Quinta do Conde, bem junto a Coina, o que, se por um lado facilita as opções dos habitantes dos Concelhos da margem Sul, põe em dúvida a necessidade e viabilidade do tal projecto intermunicipal.

Nuno Santa Clara

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