ASSOCIATIVISMO - 12 PONTOSPOR JOSÉ CARIA
Montijo

Por Jornal Rostos
1. A vida associativa conhece uma profunda mutação, ligada nomeadamente ao “ recuo” de valores colectivos tradicionais ( patriótico, ideológicos, morais...), sob o efeito das “desconstruções” das heranças que marcam a nossa cultura e os nossos costumes: a mundialização económica acelera de forma espectacular este movimento.
2. À concepção do serviço prestado à comunidade vem substituir-se a aspiração a formas de generosidade menos impessoal - não somente mais próximas de necessidades particulares dos que são ajudados mas igualmente susceptíveis de contribuir para aqueles que se envolvem. Os valores privados tornam-se fonte de desafios públicos e de acções colectivas.
3. Simultaneamente, os novos problemas e perspectivas inéditas da sociedade e das comunidades na era da globalização vão recebendo formulações concretas acompanhadas de perspectivas de acção.
4. Neste contexto o chamado associativismo popular laico ( ou variantes de inspiração confessional ) é chamado a ter de evoluir em concorrência com novas práticas associativas nos domínios da inserção social e profissional, da saúde, da cultura ou do ambiente. É à volta do indivíduo e das suas necessidades que estas associações coordenam os dispositivos facultados pelos poderes públicos ou outros parceiros.
5. As ASSOCIAÇÕES desempenham hoje papel essencial para cristalizar, no debate público, abordagens até então mal sedimentadas ou excluídas das preocupações colectivas e para serem ensaiadas e experimentadas respostas adaptadas a novos, velhos, e inéditos problemas. Contribuem por formas variadas, em sectores, áreas e domínios diversos, para extrair da multiplicidade (por vezes confusa) das aspirações individuais DESAFIOS societários ou comunitários mais VISÍVEIS. Neste sentido preenchem funções insubstituíveis na transposição de problemas, esperanças, ou ideais privados para PROJECTOS SOCIAIS IDENTIFICADOS que são susceptíveis de merecer tomadas de posições e/ou propostas e/ou parcerias dos responsáveis políticos (intermediando entre as Famílias , responsáveis políticos e políticas em curso ou a promover);
O aparecimento duma maior panóplia de ASSOCIAÇÕES em muitos sectores e áreas de actividade justifica, em parte, certas dificuldades (em alguns sectores) no caminho da “ federalização” quando podiam, deste modo, melhor fazer ouvir e valer as suas acções e ideais em estruturas de coordenação (sem perder especificidade) - Insuficiente integração em estruturas “federadas” onde se fariam representar aumentando a sua influência face às políticas em curso e em perspectiva.
6. Em relação a certas Associações (e estruturas que integram e se integram) a representação associativa no seio de outras estruturas, critérios de representatividade mais diversificados, reforma de algumas instâncias de “concertação”, as formas assumidas no diálogo com os poderes públicos, a legitimidade de procedimentos e processos para escolha de representantes associativos são pontos a considerar no actual estado de parte do movimento associativo em geral (com situações particulares em determinadas áreas a sobressairem).
7. Para melhor percebermos o Mundo Associativo em geral, além dos dados (de jure e de facto), torna-se necessário focarmo-nos (e reflectirmos um pouco) sobre as mutações que atravessam hoje o universo dos valores na nossa sociedade, nas nossas comunidades regionais e locais, porque elas constituem, em nosso entender, uma das maiores fontes de reposicionamento actual do mundo associativo, da renovação de fecundidade que conhece, mas TAMBÉM das incertezas e desafios com que se vê confrontado.
8. Três mudanças principais têm vindo a ter forte influência directa sobre os critérios de representatividade: diversificaram-se consideravelmente as maneiras de fundar a legitimidade duma acção associativa; os fins e objectivos multiplicaram-se; os estatutos intermédios proliferaram desde o voluntariado à profissionalização, à ajuda generosa, à empresa social, à reivindicação espectacular e às soluções práticas.
9. Por detrás destas transformações estão, como já referimos, movimentos de “desconstrução” dos valores tradicionais que, em certa não ínfima medida, trouxeram
turbulência, instabilidade, diluição progressiva de ideais que animavam e animam o mundo associativo - se bem que o essencial esteja vivo ( àparte certas mudanças de perspectiva).
O afrontamento, pondo em causa, de certas heranças culturais e de certas convenções sociais no caminho da libertação das dimensões da existência humana (até ao momento ignoradas e/ou reprimidas) na literatura, artes, ciências humanas não tem cessado de contribuir para movimentos de “ desconstruções “ de valores aspirando a mais liberdade(s) : - o inconsciente, a feminilidade, a infância vista por outro prisma, a boémia/tempo livre/prazeres, a banalidade, a tecnologia (em revolução permanente), a animalidade ou natureza vista no ser humano, a sensibilidade e consciência ecológicas, semelhantes processos na vida social em geral ( mesmo no quotidiano).
Uma diversidade cada vez maior de modos de existência e de ideais vem sendo reconhecida como portadora de uma autenticidade igual (ou superior) aos grandes imperativos
morais, patrióticos (ou revolucionários) enraizando nos indivíduos “ valores novos “ .
10. É claro que a diversificação das formas e finalidades das práticas associativas é consequência directa destas mutações e transformações - tornando o campo associativo
centrífugo .
11. Contrariamente ao que, algumas vezes, se ouve e lê, a diversificação de ideais e de centros de interesses reputados legítimos não destrói a adesão aos valores morais e sociais fundamentais (direitos do homem, p.e.); a maneira de os fundamentar, construir e instituir tem-se modificado profundamente.
12. (re)Construir uma perspectiva sobre os valores associativos (e do mundo associativo) e os critérios de representatividade daqueles ( associações) que os arvoram e os põem em prática que possa abranger num quadro comum (com especificidades) a crescente diversidade de intenções e objectivos é reflexão (e acções) do nosso tempo presente, connosco.
Outº.2010
JOSÉ CARIA














