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Quotidianos

REPÚBLICA E ANARCO-SINDICALISMOPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Nesses tempos iniciais da Implantação: « Os trabalhadores não eram, obviamente, um grupo homogéneo, coexistindo uma miríade de situações diferentes a nível económico e social. Concentravam-se nas cidades e em bolsas industriais, e embora minoritários, a sua concentração geográfica, sobretudo na Grande Lisboa, conferia-lhes um importante papel social e político, tornando-os uma força a ter em consideração».

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REPÚBLICA E ANARCO-SINDICALISMO Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Os ferroviários, uma classe muito republicanizada, desencadearam uma greve nacional em 1911, durante seis dias, por melhores salários e condições sociais. Os comboios paralisaram em quase todo o País, com forte adesão na região Sul, tendo o Barreiro a cabeça.
Os trabalhadores das ferro vias conseguem a satisfação da maioria das reivindicações, mas têm lugar cenas de repressão oficial sobretudo em Lisboa, o que configurava o desenvolvimento de uma relação complexa e contraditória do movimento operário, muito influenciado pelo sindicalismo revolucionário, com o poder republicano. Este fortemente apoiado nos primórdios, voltava agora as armas contra as massas populares, criando profundos sentimentos de revolta. Ainda nesse ano, o 1º governo republicano fez as primeiras mortes, na greve dos operários conserveiros em Setúbal (Março de 1911 ).
Nesses tempos iniciais da Implantação: « Os trabalhadores não eram, obviamente, um grupo homogéneo, coexistindo uma miríade de situações diferentes a nível económico e social. Concentravam-se nas cidades e em bolsas industriais, e embora minoritários, a sua concentração geográfica, sobretudo na Grande Lisboa, conferia-lhes um importante papel social e político, tornando-os uma força a ter em consideração». [12]
Também em 1911, os corticeiros barreirenses (onde as influências sindicalista libertária e socialista coexistiam), saem vitoriosos de uma greve de onze dias na fábrica Herold, onde trabalham mais de 700 pessoas:«Esta é verdadeiramente a primeira grande luta de carácter reivindicativo no Barreiro opondo o operariado ao patronato».[13]
O relacionamento das classes trabalhadoras com os governos da novel República ir-se-á complicar mais no futuro. Na greve geral de Janeiro de 1912, na região de Lisboa de solidariedade com as grandes lutas do proletariado alentejano, haverá novamente repressão pelas armas e mais mortos.
A Associação de Classe dos Ferroviários do Sul e Sueste (criada em Novembro de 1914, por extinção da Associação dos Metalúrgicos ), denota uma crescente influência da orientação sindicalista revolucionária, que preconiza :«Derrubar o governo e as principais instituições estatais, mediante uma greve geral revolucionária, acabando com a propriedade privada e pondo os sindicatos a gerir toda a produção, a benefício do povo».[14]
A Associação dirigirá a participação dos ferroviários do sul nas greves rijas do final desse ano, com sabotagens nas linhas e uma duríssima repressão pelo poder. A partir de então, nas grandes greves ferroviárias de 1918 e 1919, o aparecimento em cena do famigerado Batalhão de Sapadores do coronel Raul Esteves, e do «vagão fantasma» com os dirigentes sindicais detidos no furgão da frente do comboio, sob escolta militar (para garantir que não haveria sabotagens ), vai envenenar definitivamente as relações do movimento operário em geral, com os governos da República, agravadas por dezenas de prisões e despedimentos indiscriminados.
Em 1917, entretanto, acentua-se a corrente anarcosindicalista na Associação dos Ferroviários do Sul, dirigida por Miguel Correia e António Jos´r Piloto, que em 1919 irá promover a edição do «Sul e Sueste», o seu órgão de imprensa : « sem pretensões literárias, é um jornal de combate, de solidariedade operária. Um jornal das grandes lutas de classe, contra a administração e contra o sindicato paralelo».[15]
Curiosamente, em 1915, tinha sido publicado o primeiro jornal ferroviário «O Rail»,fundado por Jerónimo de Paiva, que teve uma existência efémera. Este animador do sindicalismo paralelo, estará ligado em 1919, ao Grémio Ferroviário do Sul e Sueste e acabará como dirigente do sindicato corporativo no tempo da ditadura do «Estado Novo», após 1933.O Grémio «amarelo» acusará Miguel Correia de viver luxuosamente num comboio privado (?) que anda a passear pelas linhas durante as greves de 1918 e 19, quando precisamente o êxito das paralisações no Sul se deve à acção dinâmica dos dirigentes sindicais que percorrem toda a ferro via em acções de esclarecimento e mobilização.
Em 1920, os homens dos caminhos de ferro do sul estão na greve nacional contra o aumento do pão, com forte adesão também dos corticeiros, e, antes do fim do ano voltam à luta rija pela desmilitarização da empresa estatal, sujeita à intervenção brutal do batalhão do coronel Esteves (golpista no 28 de Maio de 1926 ! ), sempre que recorrem à paralisação. Ao fim de 70 dias! a luta acabará numa grande derrota, que marcará profundamente os trabalhadores ferroviários e a sua orientação radical.
No número 46 do Sul e Sueste, de 1/8/1921, escreve-se: «Em dez meses, em pleno regime republicano, tem havido mais opressão e tirania do que em dezenas de anos de monarquia». Tal afirmação traduzia o estado de desanimo da classe ferroviária e dos seus dirigentes anarcosindicalista, já várias vezes detidos nas cadeias da República. Até ao fim do regime republicano a situação complicar-se-á ainda mais.

[12] Maria Alice Samara, À espera de uma nova aurora, jornal Público, 1/9/2010.
[13] Armando Sousa Teixeira, A Indústria e a Luta em Desenvolvimento, Ávante!,
2005.
[14] João Freire, Os anarquistas e a República, jornal Público, 8/10/2010.
[15] António Moreira, A poesia num jornal operário - O Sul e Sueste, 1919-1933.

Armando Sousa Teixeira
Escritor e investigador da História local

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