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Quotidianos

A REPÚBLICA E ALFREDO DA SILVAPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Alfredo da Silva, que mantém uma gestão paternalista e ao mesmo tempo autoritária, desespera com a «ingratidão» dos seus operários, não entende a agitação grevista e recusa dialogar com os representantes dos trabalhadores, hostilizando mesmo os sindicatos, onde é crescente a influência sindicalista revolucionária.

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A REPÚBLICA E ALFREDO DA SILVA Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Em 7 de Dezembro de 1910, o doutor Brito Camacho, médico e ministro do Fomento (Economia) do governo provisório da República, chefiado por Teófilo Braga, visita a CUF no Barreiro e ouve as reclamações dos operários das fábricas recém construídas por iniciativa do industrial Alfredo da Silva. Os trabalhadores exigem melhores salários e condições de trabalho, nomeadamente a redução da jornada diária. À noite, realiza-se um grande comício e os participantes acompanham no regresso o ministro ( futuro fundador do Partido Unionista, em 1912, após a cisão do Partido Republicano), com archotes e música até à estação fluvial, em ambiente de festa: «Os republicanos construíram um discurso socializante e reformista de proximidade e atenção à questão social. Estes e os trabalhadores partilharam uma visão do que poderia e deveria ser o futuro».[16]
Em Setembro, ainda antes da implantação da República, os operários da CUF, na altura pouco mais de cem, tinham paralisado em solidariedade com os corticeiros em greve, mas a sua primeira luta de carácter verdadeiramente reivindicativo, dá-se em 1911, nas novas condições de liberdade republicana, contra as jornadas de trabalho duríssimas de 14 e 16 horas, o ambiente de gasearias medonhas e os salários muito baixos, saindo parcialmente vitoriosos só no que dizia respeito às retribuições.

Alfredo da Silva, que mantém uma gestão paternalista e ao mesmo tempo autoritária, desespera com a «ingratidão» dos seus operários, não entende a agitação grevista e recusa dialogar com os representantes dos trabalhadores, hostilizando mesmo os sindicatos, onde é crescente a influência sindicalista revolucionária.
O «império» em construção, amplia-se nesta fase com a asfixia das pequenas empresas familiares do ramo da química, devido ao arrastamento dos preços, por isso a imprensa da época chama açambarcador ao «grande patrão». Por outro lado, a gestão capitalista da CUF na sua essência exploradora ( mesmo que disfarçada com benesses sociais discriminatórias ) exige salários baixos e total ausência de preocupações e investimentos na área ambiental, com o beneplácito do poder republicano, onde de resto Alfredo da Silva chegará a senador em 1918, durante a ditadura de Sidónio Pais.

O aumento da actividade produtiva das fábricas da CUF após a I Grande Guerra (1914-18 ), leva á admissão de mão-de-obra migrante e precária, oriunda do Alentejo, das Beiras e do Minho, mas também à substituição dos técnicos franceses dos primórdios, por operários especializados na soldadura a chumbo nas câmaras onde se produz o Ácido Sulfúrico. As famílias vindas da zona de Stª. Iria ,onde já se praticava essa técnica na Solvay, engrossam a corrente e trazem novas culturas associativas e reivindicativas, numa altura de grande influência do anarco sindicalismo.
Em Julho de 1919, foi desencadeada uma grande greve na CUF, em protesto contra despedimentos arbitrários e pela aplicação da lei das 8 horas de trabalho diário, aprovada pelo governo nesse mesmo ano, e que Alfredo da Silva não quer aplicar. O empresário e patrão, que estivera intimamente ligado ao Sidonismo, impõe o «lock-out» ( que a chamada lei burla de Dezembro de 1910 permitia, ao mesmo tempo que legalizava a greve ) e manda avançar a repressão armada que faz dois mortos e muitos feridos. Com o apoio da sua Associação de Classe, formada em Abril desse ano, os trabalhadores aguentam a luta por vários dias e evitam mais despedimentos, mas não conseguem as 8 horas diárias!
Tratou-se de um acontecimento paradigmático num período crucial da vida da CUF no Barreiro, durante o regime republicano, já com mais de 2000 assalariados, significativamente influenciados pelo sindicalismo libertário. Na perspectiva de Victor de Sá : «A República foi um período rico de experiência proletária, ensinamentos tácticos e aprofundamentos ideológicos, em que se deu um aumento considerável da imprensa operária e a irrupção de um forte movimento sindical e reivindicativo». [17]

Os primeiros anos da década de 20 na Companhia União Fabril, são tempos de grande expansão, com o início da exploração e do transporte de matérias-primas no prevalecente império colonial português em África, tão querido da República. São constituídas a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transporte (SG), dedicada ao transporte marítimo de / e para Angola e Moçambique, e a Sociedade António da Silva Gouvêa, com o monopólio do comércio na Guiné Bissau.
Tal crescimento só foi possível com a fusão do capital industrial de Alfredo da Silva (entretanto exilado em Espanha desde 1919,na sequência dos atentados de que foi alvo no pós-sidonismo ), com o capital financeiro da Casa Bancária José Rodrigues Totta. O negócio não foi lá muito transparente, mas sobretudo cumpria-se a lei da centralização de capitais, com o regime republicano a apadrinhar.
Anos mais tarde, na sequência da recessão económica de 1929, a Casa Bancária Totta iria ter graves problemas de insolvência, salvos por empréstimos estatais avalizados por Oliveira Salazar, então ministro das Finanças. Alfredo da Silva, regressado do exílio em Espanha em 1927, já depois do golpe militar reaccionário que destituiu a República, iria chegar a Procurador da Câmara Corporativa, em pleno «Estado Novo» fascista. Deputado na Monarquia, Senador na República, estaria de braço dado com Salazar, apesar de lhe chamar jesuíta, na expansão do império capitalista monopolista da CUF, que chegaria a reunir mais de 100 empresas.

Armando Sousa Teixeira
Escritor e investigador da História local

[16] Maria Alice Samara, à espera de uma Nova Aurora, jornal Público, 1/9/2010

[17] Victor de Sá, Roteiro da Imprensa Operária e Sindical, 1836-1986, Lisboa, Editorial Caminho,
1991.

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