A REPÚBLICA, A INSTRUÇÃO E A CULTURAPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Apesar do esforço de desenvolvimento e descentralização da instrução primária feito pelo poder republicano, a situação manteve-se muito deficitária no Barreiro, sobretudo na falta de salas de aula, ainda que o indice de analfabetismo estivesse abaixo da média dos restantes concelhos do distrito de Setúbal.
As razões são contraditórias, por um lado regista-se o fluxo migratório desde o início do século XX, e as elevadas taxas de natalidade verificadas nesse período. Em sentido contrário, constatam-se as iniciativas de cariz associativo no campo da instrução popular, e a existência de um meritório autodidactismo, inspirado pelos movimentos políticos e sindicais progressistas, incentivado pela aprendizagem profissional e cultural nas fabricas e oficinas : «A fábrica ocuparia o lugar privilegiado da escola como local de aprendizagem de saberes letrados (…)Podemos apontar para a existência de uma ligação directa entre política e alfabetização ». [17]
No final de 1900, a Associação de Classe dos Operários Corticeiros inaugurou,…«as aulas nocturnas de primeiras letras, destinadas aos filhos dos associados e aos próprios associados que as quisessem frequentar ».[18]
Já antes, em 1893,a sociedade recreativa «Os Penicheiros», mantinha na sua sede aulas de instrução primária diurnas para crianças e nocturnas para os adultos, que estavam a cargo da Associação das Escolas Móveis.
A promoção da instrução e da cultura na classe operária, passava também pela difusão do Esperanto, a língua da fraternidade universal. O «Sul e Sueste»,de Outubro de 1922,comunica que o Grupo Ferroviário de Educação Social, decidiu fundar na sua sede uma escola de Esperanto.
Em Junho desse mesmo ano, os ferroviários barreirenses estiveram em festa com a inauguração da Casa dos Ferroviários, local de instrução e de convívio das famílias, que se juntam para assistir a palestras, evocações, concertos. Passa a ser a sede do Sindicato dos Ferroviários do Sul, criado no ano de 1921, sobrevivendo à longa tirania corporativa e chegando aos nossos dias para ser ingloriamente destruída.
O interesse dos sindicalistas pelos temas da educação e da solidariedade, materializou-se na criação de escolas, e deve ser visto na perspectiva em que é entendido o próprio sindicato, tido como :…«um organismo de resistência, mas também como uma instituição moral, cujo aperfeiçoamento deverá traduzir-se nas condutas dos seus membros, por atitudes mais emancipadas, livres e solidárias».[19]
A importância do autodidactismo está expressa na seguinte afirmação do jornal socialista «Acção», que se publicou entre 1920 e 1924, no âmbito do 5º Centro Socialista do Barreiro: …«sem mestres nem escolas, a segunda parte em que dividimos a população do Barreiro, sabe interpretar Mozart e Talma, sabe compreender e definir. E como se não fosse isso o suficiente -como não é -distingue as teorias revolucionárias de Karl Marx às reformistas do educador que foi Malon«.[20]
Nas novas condições de política cultural republicana, a educação popular não devia ficar-se pela formação de sobrevivência técnica, era fundamental a tomada de consciência política : «Um bom operário não era o que sabia fazer funcionar as máquinas, mas sim aquele que ao funcionar com elas reconhecia a razão de ser histórica e social da própria máquina, e, reconhecia a favor de quem trabalhava com as suas mãos».[21]
A deficiente formação dos recursos humanos constituiu em plena República, um dos obstáculos à industrialização do País. De resto sempre assim fora desde a Idade Média:…«mais do que a escassez de recursos naturais, foi a falta de recursos humanos (operários, técnicos e dirigentes) devidamente preparados e actualizados, que travou o ritmo da industrial8ização em Portugal, no período de 1890-1926».[22]
A situação é agravada com a persistência de elevadas taxas de analfabetismo (70% em 1910! )pelo baixo poder de compra da população portuguesa, maioritariamente rural, e principalmente, pela fraca formação bruta de capital fixo pelos empresários capitalistas, demasiado preocupados com o lucro imediato.
Em 1926, depois de dezasseis anos de governação republicana, a taxa de analfabetismo mantinha-se em 66%. No Barreiro, a situação em termos de salas de aula mantém-se muito deficitária .:…«com 460 crianças nas escolas oficiais, em regime de cursos duplos, 300 no ensino particular, e, passavam de 1700 as que não recebiam instrução».[23]
Em contrapartida, a iniciativa associativa, democrática e progressista, promovia a cultura das massas populares, e, quando sobreveio o chamado «Estado Novo» : «Todos as colectividades recreativas e desportivas possuíam uma bem fornecida biblioteca onde os associados nas horas de ócio, podem recriar o espírito e cultivar a inteligência«.[24]
Esta foi de resto uma das bases da resistência democrática à implantação do fascismo em Portugal, e da luta pelo seu derrube durante quase 50 anos.
Armando Sousa Teixeira
Escritor e investigador da História local
[17] Maria Manuela P F Rodrigues, A Educação do Operariado no Dealbar do Século XX,CIE-F C Lisboa.
[18] A Voz do Barreiro, nº 5, de 23/12/1900.
[19] João Freire, Anarquistas e Operários, Porto, Edições Afrontamento, 1922.
[20] Acção, Quinzenário de educação e propaganda dos interesses do Barreiro, Ano
II, nº 27, 30/01/1922.
[21] Maria Manuela P F Rodrigues, Ibidem.
[22] Manuel Ferreira Rodrigues, José Amado Mendes, História da Indústria
Portuguesa : Da Idade Média aos nossos dias, Mem - Martins, AIP -Publicações
Europa - América, 1999.
[23] Armando Silva Pais, O Barreiro Contemporâneo. A grande e progressiva vila
industrial, CMB, 1965.
[24] A. Pratas, «A instrução no Barreiro», in « O concelho do Barreiro», 25/12/1931.














