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Quotidianos

O Barreiro e os seus cemitérios (III)Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Em breve o Barreiro disporá de um novo método de lidar com os nossos mortos de forma mais racional e até mais económica, sem que disso resulte menos dignidade na forma de tratar daqueles a quem, afinal, tudo devemos.

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O Barreiro e os seus cemitérios (III) Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Segundo um dito muito antigo, há mais mortos que vivos, e são os mortos que governam os vivos. E assim é: por muitos que sejam os vivos, mais numerosos são os que nos antecederam; e o que hoje somos, devemos a esses mesmos, que desbravaram conhecimentos, nos deixaram a língua, que moldaram a nossa sociedade, ou que, muito resumidamente, nos deram a Vida. Justo é, portanto, homenageá-los, em cerimónias religiosas ou civis, com pompa ou simplicidade, mas sempre com a dignidade que merecem.
Essa missão, entre nós, está na origem da fundação das Misericórdias, foi durante séculos exclusivamente cometida à Igreja Católica (épocas houve em que os não cristãos nem tinham direito a enterro), e, depois do fim das Guerras Liberais (1834), passaram a ser encargo das Câmaras e Freguesias. Não sem sobressaltos: a revolta da Maria da Fonte nasceu da contestação à proibição de enterros nas igrejas; e quem não se lembra da cena do cemitério da Morgadinha dos Canaviais?
O Cemitério de Palhais data dessa época, bem como o do Barreiro (o primeiro, no sítio do actual Jardim dos Franceses), depois transferido para Santa Bárbara e finalmente para a Vila Chã, onde espero que o repouso seja, por fim, eterno. O caso do Barreiro não é único: no Funchal sucedeu o mesmo, e quem hoje passeia pelo Parque da Cidade não faz ideia que está a pisar o antigo cemitério…
Entendo que um terreno, uma vez cemitério, deve ser para sempre cemitério, e há países onde esse princípio é lei. Mas isso obriga a dispor de espaços cada vez maiores para albergar gerações sucessivas, e espaço é coisa que nem sempre está disponível, sobretudo nos grandes centros urbanos – precisamente onde, pela concentração populacional, morre mais gente.
Já nos artigos anteriores desta série se tinha falado deste problema, e de uma das soluções que vem sendo cada vez mais adoptada, e que é a cremação. Ainda assim, há quem escolha depositar as cinzas dos falecidos em cendrários ou columbários, o que levanta também o problema do espaço, embora em muito menor escala que o enterro tradicional.
Segundo informações recolhidas, em Lisboa cerca de metade dos falecidos é cremada. Entre nós estamos abaixo disso, embora a anunciada abertura de um crematório no Cemitério da Quinta do Conde possa alterar a situação actual.
Foi recentemente publicada legislação que permite a constituição de cemitérios e crematórios privados; mas isso não desvincula as Câmaras das suas obrigações, pelo menos nos anos mais próximos.
Para além do espaço geométrico, há que contar com a sua utilização. No Cemitério da Vila Chã (o único com espaço disponível) os jazigos, sepulturas perpétuas e talhões reservados são a excepção, e não a regra. Assim, o mesmo espaço, ou o mesmo coval, é usado sucessivamente para inumação, seguida de exumação e transladação das ossadas para ossário ou cremação, e nova inumação, repetindo o ciclo.
Segundo a lei, a exumação não pode ser feita antes de três anos; mas a prática aponta para sete ou mais anos, antes de se poder fazer uma exumação. Ou seja, o tempo de rotação da ocupação dos covais é mais do dobro do que seria desejável, levantando novamente a questão da falta de espaço.
Daí que em muitos cemitérios se tenha adoptado o método da consumpção aeróbia, praticada ao nível do solo ou em várias fiadas horizontais. A decomposição é independente das condições do solo (o grande problema da Vila Chã), e a rotação de utilização dos nichos, ou gavetões, aproxima-se dos três anos do mínimo legal.
Este método, no fundo, pouco difere da exumação tradicional, e pode ser feita sem alteração dos ritos fúnebres. Identificado o nicho, podem ser prestadas as mesmas homenagens que nas campas ou ossários. E, do ponto de vista material, dispensa a construção de campas temporárias, uma vez que tudo se resume à deposição no nicho até posterior transladação. Existem mesmo cemitérios onde é possível adquirir nichos perpétuos.
Além disso, não sendo necessária a abertura de covais, deixa de haver a remoção, ainda que temporária, de terra para os espaços comuns ou mesmo para as campas vizinhas, com todos os inconvenientes que isso acarreta. E deixa também de se verificar a deambulação dos acompanhantes dos funerais por entre as sepulturas, à procura de um lugar junto daquele de quem se querem despedir.
De qualquer forma, em breve o Barreiro disporá de um novo método de lidar com os nossos mortos de forma mais racional e até mais económica, sem que disso resulte menos dignidade na forma de tratar daqueles a quem, afinal, tudo devemos.

Nuno Santa Clara

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