OS ASSALTOS DE JULHO DE 1917Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
A vozearia crescente, incompreensível mas ameaçadora, fez o comerciante levantar a cabeça do livro de merceeiro e das contas do rol de fiados, que sempre preenchiam o serão, depois do jantar às 8 horas impreterivelmente.
- Que querem? A loja já está fechada! «Desandarem» ! - espreitando à varanda da habitação no 1º andar, ficou assustado perante a multidão vociferante, mas não perdeu logo o arrogo tradicional.
- Queremos os géneros que nos faltam ! Tens os armazéns cheios e «agente a passar fome» ! - retorquiram com firmeza o Simpliciano e o Claudino, no meio dos apupos e vaias em crescendo. Eram os dois jovens operários ferroviários e amigos que vinham à frente do magote, reunido espontaneamente pelo bate-boca nas esquinas do descontentamento da vila velha.
-Andas a vender o bacalhau às escondidas, malandro! - uma voz de mulher decidida, subiu no meio do bruá colectivo do centenar de revoltados.
- Mentira ! Mentira ! Tenho o armazém vazio! Vou chamar a Guarda ! - o lojista começava a perder a compostura, protestando com gestos dramáticos.
-Isso é o que vamos ver ! P’rá frente pessoal !
Recruscedendo de furor, dezenas de ombros atiraram-se à porta metálica que guardava a mercearia - drogaria do senhor Lopes e acabaram por arrombar a fechadura. A turba furiosa invadiu o armazém nas traseiras, começando a transportar para o exterior dezenas de sacos e fardos com alimentos, há muito sonegados e vendidos à socapa no mercado negro.
A excitação abafava os gritos histéricos do pequeno comerciante, agora implorante com as mãos nos cabelos desgrenhados :
- Fico na miséria! Levam-me tudo! Fico na miséria!
- Cala-te patife! A fazer «agente passarmes» fome com o armazém «chei» !
Novamente a resposta decidida, camarra e feminina, destacada no meio da agitação alumiada por alguns archotes em mãos juvenis. A noite estava escura e a iluminação era escassa, os vultos furtivos dançavam num fulgor conspirativo, ajoujados com as cargas preciosas a caminho de casa, indiferentes aos rogos do merceeiro - droguista desvairado.
- Tou desgraçado !Fico na miséria !
- Usurário ! Açambarcador ! Só levamos o que faz falta, merecias que te partissem tudo!
Mas não partiram, levaram arroz, açúcar, feijão, massas e bacalhau, o fiel amigo tão arredado da mesa daquela gente pobre, que carregava também as grandes desilusões do «bacalhau a pataco» da propaganda republicana incumprida.
Chegavam entretanto agitados retardatários, frustrados pela mensagem tardia que corria as ruas da vila operária, e pela escassez dos «salvados restantes», até que alguém lembrou que há muito também o pão escasseava.
-Vam’bora ! Vamos assaltar a padaria ! Bora !
*
Faziam-se diariamente grandes bichas para adquirir o fundamental alimento, que nunca chegava para todos. Tal como em relação à mercearia do Patrício, constava que havia muita farinha no armazém da padaria do Isaías.
A porta de madeira com vidros rectangulares foi fácil de arrombar. Quando, esbaforido, com as mãos na cabeça e um ar de pânico, o senhor Gomes enfrentou a pequena multidão, já o vai - vem de sacas de farinha às costas ou transportadas a duo, se tinha iniciado.
-Não me desgracem! Não me desgracem!
-Só queremos dar de comer aos nossos filhos!
Os homens com as vestes modestas da gente operária, não pararam para responder ao pequeno industrial, que em alvoroço entrou na padaria atrás dos assaltantes.
-Tá bem! Tá bem! Vou mandar cozer uma fornada de pão para vocês! -encarando o homem de estatura média, entroncado e de bigode farfalhudo, que aparentava ser um dos líderes, acrescentou :
-Simpliciano! Não me levem a farinha, não me desgracem! Eu mando já cozer o pão!
Dezenas de homens e mulheres de «ríctus» contraído , caras de privações e esgares de excitação, hesitam embaraçados :
-Não confiem neste bandido !Tem toneladas de farinha lá dentro e o pão escasseava! - grita contundente o ferroviário Claudino, republicano e simpatizante anarco sindicalista.
O grupo juntou-se hostil e ameaçador. Os tempos de racionamento dos géneros de primeira necessidade, explicado pelo Governo da República como consequência da I Grande Guerra, em curso há já três terríveis anos, criavam uma situação de grande angústia e animosidade. Simpliciano, a quem o empresário se dirigira em desespero, hesita também. Conhece bem o comerciante Gomes, que viera há anos da zona de Aveiro, «com uma mão atrás e outra à frente»,como se dizia na gíria. Fizera casa como industrial de panificação, numa época de forte crescimento populacional, mas nunca negara o pão fiado nos Invernos de orçamento familiar minguado.
- Que vamos fazer com a farinha? O «home» já garantiu que manda fazer uma fornada1...
- Vai já acender o forno, carago !
Agitado e temente, o patrão empurrou um moleque, aprendiz de padeiro, apressando-o. A malta estava dividida mas o argumento convenceu os mais timoratos e o vai vem inverteu-se, com os sacos de farinha a serem recolocados na origem
Não tinham ainda terminado a tarefa, contrafeitos, quando um grito de alerta tardio eclodiu rua abaixo :
-Vem aí a polícia ! Vem aí a polícia !
De repente, como que caído do céu, um destacamento de polícias descendo o Largo do Casal, armados de espingardas, caiu como um raio à coronhada indiscriminada sobre a maralha em debandada, no meio de gritos raivosos :
- Traidor ! Canalha ! «Há-des» pagá-las !
*
No rescaldo tardio, enquanto os polícias chamados à sorrelfa, corriam atrás de alguns recalcitrantes tentando recuperar os géneros surripiados, nas casas modestas do Barreiro operário e pescador, já se cozinhava massa e feijão para melhorar a dieta, e preparava-se o bacalhau para a festa anunciada do dia seguinte. Naquela noite muitas famílias barreirenses tiraram a barriga da miséria.
Em boa hora o fizeram, porque no dia seguinte, a tropa do Batalhão de Caçadores cercou a vila ribeirinha, a mando do governo republicano, e invadiu as casas denunciadas, arrombando portas, revirando os tarecos do avesso, apreendendo, maltratando prendendo.
Nessa altura , Julho de 1917, as revoltas populares estalavam por todo o País, a República não resolvera as grandes questões sociais, como prometera na primeira hora, e reprimia com ferocidade a fome insubmissa.
No crepúsculo da tarde magnífica no Tejo triste, no areal dourado da praia calma, quando a maré vazou, havia arroz, massa, feijão espalhados entre conchas e palhuço, para desgosto dos homens, aplacação dos deuses e o gáudio das gaivotas.
A República prometera, não dera , tirara e iria perder.
Armando Sousa Teixeira
Escritor e investigador da História local
Extraído do livro em construção
JUVENTUDE DESINQUIETA , O DESPERTAR DA MALTA, do autor.














