Em louvor do Tim-Tim (II)Por Nuno Santa Clara
Barreiro
Todos os animais domésticos desempenham as suas tarefas e cumprem os seus destinos, mas só os porcos chafurdam no seu próprio estrume. Será por isso?

Por Jornal Rostos
Todos (os da minha idade) se lembram do Zorro; depois, foi o regresso do Zorro; o Zorro volta a atacar; o filho do Zorro; o neto do Zorro, e por aí em diante.
“Em louvor do Tim-Tim (II)” não foi escrito dentro desse espírito, nem começa com cenas dos capítulos anteriores. Porquê então essa insistência? Porque algo de novo surgiu?
Não! Bem pelo contrário, porque algo do mesmo se seguiu.
Quando, há duas semanas, escrevi que, ou dirão alguns insinuei que, alguém ganharia sempre que os juros da dívida portuguesa subissem. Não sendo economista, nem sequer de praticante de matemáticas profundas, tenho de me limitar à Aritmética, essa grande ciência dos Indianos, dos Caldeus, dos Egípcios, dos Gregos, e de outros nossos grandiosos antepassados, e que vai estando ao meu alcance.
Essa robusta e sólida ciência ensina-nos que se A + B = C, então C – A = B, ou C – B = A. Portanto, nada desaparece, apenas muda no algoritmo. Ou seja, no nosso caso concreto, muda de dono. Passando da Aritmética ao complexo mundo dos fluxos financeiros, os nossos activos e passivos, por força de muitas coisas que nem me atrevo a enunciar, mudaram de dono. Parece que é uma consequência da nossa diminuída soberania Dirão alguns que minguada contra nossa vontade expressa, dirão outros que foi cerceada por falta de esclarecimento. Mas lá que foi, foi.
Foi há dias anunciado que um dos nossos bancos, zangado com o rating produzido por uma dessas agências que têm o poder fazer passar o A e o B para o lado do C, ou vice-versa (sem produzir um parafuso ou uma banana), cortou o contrato que tinha com ela. Lógico e louvável, mas perigoso: olha se a moda pega, e se se começa a pedir a cada um contas pelo que faz!
Estamos pois numa situação curiosa. Temos um dívida volumosa, sem dúvida, mas cuja cobertura parece garantida, a acreditar nas declarações externas e internas; temos taxas de juro exorbitantes, derivadas à nossa pequenez e à nossa tacanhez; e temos interessados em comprar essa mesma dívida, o que, dadas as garantias, até é um bom negócio, tão bom que até Timor-Leste está interessado em investir nisso os seus parcos petro-dólares. E o seu nobelizado Presidente já explicou que, se o petróleo rende 1,6%, a dívida portuguesa rende mais de 7%...
Em jeito de consolação, podemos agora dizer que, à semelhança daquela conhecida marca de café, que criou um sistema em que na compra de cada embalagem era feito um donativo para Timor, agora cada vez que as agências de rating fazem aumentar os nossos juros, nem que seja em 0,1%, estamos a contribuir para o bem-estar do povo timorense.
Deve ser por isso que as discussões, indecisões, conversações, especulações e mais confusões continuam: não só para bem do povo maubere, mas para bem de muitos outros povos, desde a Europa até à China.
E não se procure consolação em casos semelhantes: a Irlanda, a tal que era o exemplo para a Europa e para o Mundo, está pior que nós. Nós que, com a Grécia, Espanha e Irlanda, somos o que os alemães convencionaram designar como PIGS (Portugal, Ireland, Greece, Spain). Só que “pigs”, em inglês, significa “porcos”…
Todos os animais domésticos desempenham as suas tarefas e cumprem os seus destinos, mas só os porcos chafurdam no seu próprio estrume. Será por isso?
E por isto voltamos ao nosso Tim-Tim e aos seus amigos detectives: cherche le crime à qui profitte!
Nuno Santa Clara














