A REPÚBLICA E OS NOVOS VENTOS DA HISTÓRIAPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Ao tempo do evento da República, os trabalhadores não eram um grupo homogéneo, havia na classe operária diferentes níveis de politização, e encontramos no Barreiro, como noutras grandes concentrações industriais, um espectro político que passa pelos republicanos, pelos socialistas, até aos sindicalistas revolucionários ou anarco sindicalistas. O comunismo só irá entrar no campo político e no movimento operário barreirense e português, depois da Revolução Soviética de Outubro de 1917 ( Novembro, no novo calendário.
Os socialistas assumiram desde muito cedo uma posição crítica em relação ao republicanismo e em defesa do seu programa. O jornal Ávante! Já referido, publicado no âmbito do 3º Centro Socialista do Barreiro, reafirma repetidamente em 1910, os princípios doutrinários e as suas raízes antagónicas em relação ao ideário republicano:
« Monarquia e República oferecem os mesmos conluios interesseiros, as mesmas manobras de intriga, as mesmas protecções escandalosas, os mesmos monopólios irritantes e opressores, e até os mesmos abusos na administração superior do erários e das fontes da receita pública ». [25 ]
Encontramos sem dúvida nestas formulações críticas dos socialistas barreirenses, com Ladislau Batalha à cabeça, traços de uma herança marxista: «Partido Socialista, único antagonista dos partidos burgueses, que conservam a exploração do homem pelo homem, e todas as desigualdades que constituem a origem de todas as misérias». [26 ]
Apesar desta ideologia utópica, o Ávante também advoga uma estratégia consequente, abordando de forma pragmática, «…a necessidade de um programa político. Apela para a acção, por um socialismo revolucionário em que a greve e a agitação de rua, seriam armas importantes». [27]
Curiosamente, ao contrário do que se passou na generalidade dos países da Europa, em que os partidos comunistas nasceram dos partidos socialistas, na base da criação do Partido Comunista Português, estão militantes oriundos do sindicalismo revolucionário.
O «Sul e Sueste», órgão do Sindicato dos Ferroviários, de inspiração anarco sindicalista, informa que dois activistas, Leopoldo Calapez e Manuel D. Júnior, foram presos por possuírem exemplares do «Bandeira Vermelha», órgão da Federação Maximalista, criada em 1919.A publicação será apreendida várias vezes, dezenas de simples distribuidores do jornal, membros da Federação Maximalista Portuguesa, ou tão só por suspeita de serem bolcheviques, são presos.
Os novos ventos anunciados da revolução russa chegavam a Portugal e os trabalhadores barreirenses, cultos e atentos, como se escrevia na literatura da época, «…distinguindo as teorias revolucionárias de Karl Marx, às reformistas » [28],compreendiam a mensagem.
Ainda em 1919, com vários jornais sindicais e operários a noticiarem a realidade da Rússia pós - revolucionária, tinha sido criado o Conselho de Propaganda Social, para a defesa da Revolução de Outubro, que, juntamente com a Federação já referida, serão as duas principais raízes do PCP.
A fundação do Partido Comunista Português, em 6 de Março de 1921, numa assembleia primordial realizada na sede da Associação dos Empregados de Escritório, na Baixa de Lisboa, está intimamente ligada à Revolução Soviética, cujos ecos aumentam junto dos sectores mais esclarecidos do proletariado português. Ainda em 1921, são editados pelo PCP, «O Comunista» e o Jovem Comunista», órgão das Juventudes Comunistas, entretanto criadas.
Em 1923, existirá no Barreiro, na sequência da formação do PCP, a comuna Karl Marx, formada por : António Pegado, António Guerreiro, Jaime Azevedo e Leopoldo Calapez.
Na propaganda oficial republicana, a situação na Rússia é descrita como, «…o inferno na terra, e o comunismo como uma terrível praga que ameaça o mundo, exigindo-se mão dura para o combater. A luta social e os sindicatos são equiparados a inimigos internos, agindo às ordens de Moscovo». [29]
O aumento da influência das novas ideias que vêm do frio, concomitante com o desenvolvimento do movimento operário, repercute-se na estruturação de um aparelho policial especializado na perseguição aos elementos «indesejáveis» : os bolcheviques, os maximalistas e os comunistas. Na fase final da República, foi criada a
Polícia Preventiva de Segurança do Estado ( PSE ), que precedeu a Polícia Especial de Lisboa, formada em 16/06/1926, após o golpe militar reaccionário de 28 de Maio.
A PSE vigia as iniciativas do Partido, em Maio de 1926 foi preso o destacado militante Roque Júnior, enquanto usa da maior complacência para com a ameaça fascista que já era uma realidade.
Ao II Congresso do PCP, convocado para 29 de Maio de 1926, compareceram mais de 100 delegados, mas o golpe militar da véspera obriga à interrupção, depois de tomada uma posição de denúncia da investida fascista.
O PCP foi ilegalizado e a sua sede definitivamente encerrada em 1927, passando à clandestinidade onde continuará a sua luta inspirada no marxismo-leninismo. Em 1929, durante a reorganização promovida por Bento Gonçalves, será criado o primeiro organismo comunista no Barreiro.
Armando Sousa Teixeira
Escritor e investigador da História local
[25] Ávante !, nº 8, de 27/02/1910
[26] Ávante !, nº4, de 13/01/1910
[27] Theresa Aires de Campos, O Ávante! (1909-10)-Exemplo de um jornal
socialista local, Um Olhar Sobre o Barreiro, nº1-III Série, 1992.
[28] Acção, nº27, de 30/01/1922.
[29] Domingos Abrantes, A República e a Rússia Revolucionária, Militante
nº309,Nov/Dez 2010.














