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Quotidianos

«Romper o Silêncio»Por Jorgete Teixeira
Barreiro

É necessário criar, nos tribunais, mecanismos de defesa das vítimas, recorrendo ao uso efectivo de pulseiras electrónicas pelos agressores, o que poucas vezes acontece, como foi denunciado pela deputada Helena Pinto do BE, para impedir que uma mulher, mesmo depois de apresentar queixa às autoridades, ainda se encontre ao alcance do agressor e que muitas vezes acabe sendo morta.

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«Romper o Silêncio» Por Jorgete Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

O Observatório de Mulheres Assassinadas da UMAR registou, já este ano, 39 vítimas de violência doméstica. Mais 10 do que no ano passado.
Estes crimes arrepiam pela brutalidade com que são praticados, pela impunidade de que gozam os agressores, pela falta de legislação ou pela não aplicação da mesma.
Desengane-se quem pensa que estes casos só acontecem em certos ambientes social e culturalmente desfavorecidos. Este é um fenómeno transversal a toda a sociedade, que não olha a idades, nem a classes sociais, nem a ideologias políticas ou religiões.
São crimes que são perpetrados no silêncio das habitações, calados pela vergonha das próprias vitimas, legitimados por séculos de uma ideologia machista que considerava que a mulher era pertença primeiro do pai e depois do marido e que um correctivo, a tempo e horas, era o melhor para a manter submissa ao seu senhor.
Infelizmente, esta ideia permanece no nosso tempo, onde o homem é criado para dominar, onde as infidelidades masculinas são toleradas e consideradas normais e as femininas apontadas a dedo. Os homens ainda são educados para serem os machos dominantes, o sexo forte e por isso não aceitam a recusa, lidam mal com a rejeição e tornam-se violentos quando alguém lhes diz que não. São criados para o sucesso em todos os campos e também no amor. Não é por acaso que grande parte dos crimes são praticados por ex-maridos, ex companheiros, ex-namorados.
Quando as mulheres tomam coragem e querem romper com a situação, inúmeros entraves se levantam e um dos mais importantes é o económico, porque algumas não trabalham ou ganham pouco e têm de levar os filhos com elas. Muitas vezes entram em desespero porque a própria família não as acolhe, considerando sempre que à mulher cabe ter paciência e esperar que as coisas melhorem.
Apesar dos esforços feitos no sentido de defender a vítima, por várias organizações a esta causa dedicadas, nem sempre as mulheres, quando fazem queixa às autoridades, são bem recebidas. Há que ter em conta que as mentalidades não mudam de um dia para o outro e mesmo que inconscientemente, os agressores são desculpabilizados” alguma coisa ela deve ter feito” e as próprias mulheres se culpabilizam por um crime que ainda não é totalmente assumido pela nossa sociedade, como tal.
Mas o mais grave da questão é que quando se decidem têm de se esconder, porque os agressores não as deixam em paz, apesar de denunciados, apesar da decisão dos tribunais, eles continuam a persegui-las a torturá-las até que um desfecho trágico ponha fim à questão.
É necessário quebrar este ciclo, romper o silêncio.
É necessário criar, nos tribunais, mecanismos de defesa das vítimas, recorrendo ao uso efectivo de pulseiras electrónicas pelos agressores, o que poucas vezes acontece, como foi denunciado pela deputada Helena Pinto do BE, para impedir que uma mulher, mesmo depois de apresentar queixa às autoridades, ainda se encontre ao alcance do agressor e que muitas vezes acabe sendo morta.
É necessário intervir e denunciar estes crimes que se passam na nossa cidade, no nosso bairro, na nossa família.
É necessário que eduquemos os nossos filhos, rapazes e raparigas, de uma forma não sexista, habituá-los a dividir as tarefas, fomentar o respeito pelos outros e fazê-los sentir que, apesar das diferenças, são todos iguais em direitos.
É necessário que a Educação Sexual, nas nossas escolas, preste mais atenção à violência no namoro, porque às vezes é aí que começa a onda que se vai propagar mais tarde nas relações entre adultos.
Por fim é necessário que as próprias mulheres se valorizem cada vez mais e invistam na sua formação profissional e pessoal.
É preciso acordar para esta calamidade que ceifa todos os anos tantas vidas.
Não podemos despertar para este flagelo apenas em determinadas datas ou quando a noticia nos cai em cima através dos jornais ou da TV. Aí todos nos sobressaltamos, ouvimos os especialistas, comentadores, jornalistas.
Depois, tudo cai no esquecimento, até à próxima vítima.

Jorgete Teixeira

NOTA: Promovido pelo Bloco de Esquerda – Concelhia do Barreiro, vai realizar-se o Debate contra a violência doméstica e Círculo "Romper o Silêncio",no próximo sábado,dia 27 de Novembro, pelas 17 horas na SIRB "Os Penicheiros" – Barreiro - Rua Almirante Reis, 66 (Barreiro Velho).
Participam no debate: Helena Pinto (Bloco de Esquerda), Telmo Torrinha (Rumo/GAV-Grupo de Apoio à Vítima) e Elisabete Brasil (UMAR)

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