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Quotidianos

DESILUSÃO E CONTRA-REVOLUÇÃOPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Esperanças vãs, desilusão amarga, terão sido os sentimentos dos trabalhadores das ferrovias, em relação ao avanço da ditadura militar, quando o «Sul e Sueste» ficou sujeito a censura prévia ( comum todos os jornais sindicais ), e Miguel Correia foi novamente preso em Setembro de 1926 e deportado para Moçambique ( com passagem por Cabo Verde ), donde não mais voltaria.

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DESILUSÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

A última greve dos ferroviários do Sul e Sueste, antes do golpe militar reaccionário, teve lugar no ano de 1923. Durou três dias, novamente com muita violência governamental e acções de sabotagem como resposta por parte dos trabalhadores. Nessa altura foi detido pela 4ª vez, o telegrafista Miguel Correia, presidente do Sindicato e dirigente da CGT (Confederação Geral do Trabalho) anarquista .
Segundo alguns historiadores, terá sido o maior agitador ferroviário que houve em Portugal, seguindo uma orientação e uma prática política e sindical próxima do marxismo - leninismo em expansão, com a divulgação entre as classes trabalhadoras das conquistas e avanços da revolução soviética.
Registe-se que o estado republicano nunca reconheceu a URSS (tal como o posterior «estado novo» de Salazar ) ao contrário do que fizeram a maioria dos países europeus, incluindo a « tutora » Inglaterra.
Miguel Correia percorria com outros dirigentes sindicais as linhas do Sul e Sueste, até às estações mais recônditas, levando a mobilização e o discurso persuasivo, enquanto os seus detractores punham a circular que vivia luxuosamente numa carruagem privada fornecida pelos patrões (?). A atoarda veio do sindicalismo paralelo, com pequena expressão, enquanto nunca terá havido tantos ferroviários sindicalizados como nesses tempos.
Ainda no ano de 1923, o governo republicano manda retirar a subvenção que garantia o preço baixo do chamado « pão político ». Mais uma machadada na vida muito pobre das famílias operárias portuguesas, nomeadamente nas famílias corticeiras barreirenses, normalmente com muitos filhos, vivendo numa divisão alugada num pátio ou ilha » operária.
Sem protecção social em caso de doença, desemprego, acidente ou velhice, o operariado trabalha até morrer de extenuação ou de desastre, deixando as famílias na mais completa indigência, por falta de leis de protecção e de reforma, que a Monarquia desprezara e a república não soube ( ou não quis ) criar. Refira-se que a adesão às Associações de Socorros Mútuos, financiadas pelos próprios operários, tinha uma pequena abrangência.
Em 1925, os corticeiros travaram uma poderosa batalha durante 42 dias, por melhores salários, sem êxito, depois de muita pressão patronal oficialmente consentida. como referiu um cronista coevo, imagine-se os trabalhadores depois de tantas privações, obrigados a vergar e a entrarem ao portão das fábricas de cabeça baixa!…
A República, para afastar o Sidonismo, para vencer a intentona monárquica de Monsanto e a chamada Monarquia do Norte, contou sempre com o apoio decisivo das classes populares, sobretudo nos tempos conturbados que se seguiram à I Guerra Mundial, simultaneamente um período de grandes desilusões das classes trabalhadoras.
Como concluí-o Victor de Sá :«A agudização das lutas sociaisficou adever-se a vários factores, entre os quais a não execução de qualquer programa social que havia sido prometido (tanto que nem mesmo a promessa do sufrágio universal foi satisfeito), o agravamento da repressão contra os trabalhadores, a participação na Grande Guerra e a carestia de vida».[30]

Quando surge o golpe militar reaccionário de 28 de Maio de 1926, o líder dos ferroviários do Sul, Miguel Correia, que já estivera várias vezes detido nas cadeias da República, negociou um compromisso com os rebelados, prometendo-lhes a paralisação do tráfego normal e todas as facilidades para o transporte das tropas revoltosas. Terão os sindicalistas libertários pensado que a situação política republicana era tão má que para pior já não era possível mudar?
A CGT anarquista, como a CIS (Confederação Inter Sindical ) de influência comunista, tal como o PCP, a iniciar o seu segundo congresso legal, apressaram-se a condenar o golpe contra - revolucionário, enquanto a colaboração referida do Sindicato dos Ferroviários do Sul, era concretizada mediante a apresentação de uma lista de reclamações aos chefes insurgentes de Lisboa, comandantes Mendes Cabeçadas ( destacado militar na implantação da República ) e Gama Ochoa.
Esperanças vãs, desilusão amarga, terão sido os sentimentos dos trabalhadores das ferrovias, em relação ao avanço da ditadura militar, quando o «Sul e Sueste» ficou sujeito a censura prévia ( comum todos os jornais sindicais ), e Miguel Correia foi novamente preso em Setembro de 1926 e deportado para Moçambique ( com passagem por Cabo Verde ), donde não mais voltaria.

Após um curto período de alguma confusão interna em que o poder passa de Mendes Cabeçadas para Gomes da Costa (em 29/06/1926 ) e este é deposto por um golpe dos generais Sinel de Cordes e Óscar Carmona (em 09/07/1926 ), o sector militar mais reaccionário toma o poder e o general Carmona é eleito Presidente da República em 25/03/1928, como candidato único pois a oposição estava proibida.
António de Oliveira Salazar é convidado para ministro das Finanças, em Abril de 1928, e entretanto é criada em 17/03/1928, a Polícia de Informação do Ministério do Interior, a primeira polícia de âmbito verdadeiramente nacional.
A I República fora vencida, em grande medida porque perdera a base de apoio popular dos trabalhadores. O regime militar ditatorial, apoiado pelos grandes grupos da burguesia capitalista e pelas classes agrárias ultramontanas, vencera espalhando ilusões e promessas de ordem, estabilidade e bem estar social. O próximo passo seria a fundação do regime fascista do «estado novo», com Salazar nomeado presidente do conselho de Ministros, em Junho de 1932.

Armando Sousa Teixeira

(Escritor e investigador da história local)

[30] Victor de Sá, Roteiro da Imprensa Operária e Sindical, 1836-1986,Editorial
Caminho, 1991.

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