Déja vuPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Esta expressão tão típica dos franceses, passou a ser internacional: exprime a ideia do que já foi visto, daquilo que não é novidade, enfim, do que é uma vulgaridade.
Antes de mais, uma ressalva: eu não quero armar em poliglota. O francês é a língua franca de cerca de um milhão de portugueses, emigrantes de primeira e segunda geração, e portanto falar francês deveria ser para nós tão natural como um americano falar castelhano. Mas atendendo a que, nos Estados Unidos da América, cerca de um terço dos seus habitantes é de origem hispânica, e a que ninguém se atreve por lá a exprimir-se na língua de Cervantes, devemos considerar como uma vantagem nossa falar francês (como inglês ou espanhol); isso coloca-nos, não numa posição de subserviência, mas na de cidadãos do Mundo. Vantagens disso? Perguntem a António Guterres ou a Durão Barroso…
Voltando ao déja vu. O psicodrama criado á volta das revelações da Wikileaks é dos factos políticos mais interessantes dos últimos tempos. Não que não estejamos habituados, nós os portugueses, a factos políticos. O inventor do facto político continua na crista da onda, a perorar com elevação, saltando de canal em canal dentro da nossa Televisão, e até já fez escola. A novidade, para nós, é que desta vez, o facto político é universal.
Em primeiro lugar, o volume dos documentos revelados (um quarto de milhão!) dá que pensar. Como é possível? Pois bem, se queremos exemplos históricos, a forma mais fácil de tomar um castelo é ter aliados lá dentro. E as regras da estratégia dizem que um plano, para ser bom, deve ser simples, e fácil se executar. E, como para dar mais consistência a esta linha de pensamento, um alto dirigente australiano acaba de criar novo facto político, dizendo que a culpa das fugas da informação não é da Wikileaks, mas dos Estados Unidos da América.
Em enganar-se os americanos são peritos. Desde sempre se preocuparam com identificar grupos de risco: minorias, anarquistas, comunistas, estrangeiros, etc. E pô-los sob vigilância, impedi-los de exercer cargos públicos, de ser militares. Mas os grandes casos de espionagem do século XX tiveram a ver com agentes comprados, e não com activistas políticos. Ou seja, enquanto o FBI vigiava quem tinha o cabelo comprido, ou era contra a Guerra do Vietname, vários espiões, altamente colocados dentro das forças armadas, ostentavam sinais de riqueza sem nenhuma justificação – e ninguém reparava no que estava á vista de todos.
Este seria o cenário da traição; mas também pode desenhar-se o cenário da incompetência, ou seja, como é que um país que sempre esteve na vanguarda da informática não consegue, se não controlar, pelo menos criar contra medidas para a pirataria informática. Não esqueçamos que hoje não é segredo para ninguém onde está esta divisão, aquele navio ou aquele avião, mas que frequências usa a divisão, com que materiais foi construído o navio, ou como são os motores do avião – e tudo isso passa pela espionagem comercial, e não pela espionagem militar. O que explica a origem de muitas fugas de informação, quer quanto a mísseis, quer quanto a viaturas comerciais ou a flutuações de mercado.
Passemos ao teor das mensagens reveladas pela Wikileak. E a primeira constatação é a do déja vu. Nada do que foi publicado pode ser considerado novidade; quando muito, será a confirmação do que se vinha já dizendo e escrevendo. Se quisermos levar o caso ao extremo, quase tudo o que foi agora publicado estava disponível nos media. E, ainda por cima, não na imprensa séria e especializada, protegida por aquela barreira de linguagem hermética a que tive já oportunidade de me referir noutra ocasião, mas nos meios mais acessíveis.
Ou seja, os “escândalos” agora revelados sempre estiveram disponíveis na imprensa cor-de-rosa e nos tablóides de grande circulação. Se o leitor, como eu, é avesso a comprar dessas publicações, vá simplesmente ao dentista, ao barbeiro, ao médico, ao cabeleireiro ou ao veterinário, e lá encontrará imprensa dessa em abundância. Não se preocupe com a data das publicações: a asneira é perene, e nunca estará fora de moda.
Assim sendo, isto levanta uma tremenda questão: se o que é do conhecimento de todos se transformou, por estranha cabala, em material classificado, como justificar os milhões gastos nos serviços de informações? Lá que se invista em espionagem séria, isso compreende-se: estão em causa os interesses nacionais. Mas investir milhões no recorte e catalogação de fofocas?
Não sejamos tão radicais. Desde sempre se procurou conhecer as intenções alheias, sejam estas de inimigos (naturalmente!), de neutros (sempre imprevisíveis!) ou de aliados (nem sempre de fiar!). Pelo que conhecer os interlocutores, e sobretudo as suas fraquezas e vulnerabilidades, foi sempre essencial, e portanto para os amantes da História e para os agentes da Política este assunto não passa de um fait divers (novo francesismo!), uma anedota ou acidente de percurso. Assim o entendeu o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, o único que, para mim, definiu bem o assunto: disse que se tinham divertido muito a ter os textos.
E não terá ele razão? Berlusconni é mulherengo? Já cá se sabia; Putin é maquiavélico? Já cá se sabia. Sarkozy anda perto do ridículo? Já cá se sabia. Os voos da CIA passaram por Portugal? Já cá se sabia. E assim por diante.
Três notas finais. Primeiro, a Diplomacia secreta tem sido uma constante em todo o Mundo, e não será este caso que vai alterar essa prática. Lembremos que, em 1917, os sovietes se propunham a acabar com a diplomacia secreta; o tempo e a experiência fizeram-nos mudar de ideias.
Segundo, qualquer servidor de um Estado deve ser um agente de informação; não um espião (isso é para profissionais), mas alguém que deve contribuir com os seus conhecimentos para os superiores interesses do seu País. E essa informação muitas vezes está aberta e disponível por toda a parte. Para os incondicionais do romantismo da espionagem, recomendo a leitura do livro O nosso agente em Havana, de Graham Greene; o autor, membro dos serviços de informações ingleses durante a II Guerra Mundial, descreve aí magistralmente o que é a paranóia dos serviços secretos.
Terceiro, toda esta história vem dar razão a Bismark, o homem que levou o pragmatismo ao extremo, criando aquilo a que se chamou a real politik: em política, o que parece, é.
Nuno Santa Clara














