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Quotidianos

Da caridade cristãPor Nuno Santa Clara
Barreiro

“A caridade supera a justiça… mas não posso dar ao outro o que é meu, antes de lhe dar aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles”

Não parece haver antagonismo entre os dois conceitos. O que transparece é que a prática da caridade pressupõe o cumprimento da justiça.

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Da caridade cristã Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Na época natalícia nota-se uma propensão para as boas acções, o que para mim é bom. Qualquer pretexto para praticar o bem deve ser aproveitado. O único reparo que se pode fazer é que, como diz a canção, fazer o bem uma vez por ano sabe-me a pouco.
A nossa matriz cultural é cristã, ou judaico-cristã, como quiserem. Mesmo os que se assumem como ateus comungam daquele conjunto de valores, de entre os quais distingo o amor ao próximo e a solidariedade, que assentam nessa matriz. E compreendo bem a posição, muito corrente nos anos sessenta do século passado, de considerar o marxismo como uma heresia do cristianismo.
Pois mantém-se a tradição do Natal como época de solidariedade, como festa de família, todos já esquecidos de qualquer menção ao paganíssimo solstício de Inverno, que alguns teimam em considerar como origem da quadra. Mesmo a nível internacional, para não ferir susceptibilidades, substitui-se o Merry Christmas por Season´s Greetings, mas o espírito é o mesmo.
Vem isto a propósito da polémica surgida sobre as visitas natalícias do Presidente da República, que foram objecto de críticas e reparos, e correspondentes respostas, ou não estivéssemos em pré-campanha eleitoral.
A primeira constatação é que, se não fossem as eleições que se aproximam, ninguém teria comentado; seria um acto tão normal e ao mesmo tempo, tão formal e por isso tão vazio de sentido como enviar cartões de Boas Festas; uma obrigação social que só se torna notada quando não é cumprida.
A segunda é que foram postas em confronto dois conceitos da mesma acção: a Caridade e a Justiça, como se fossem coisas antagónicas. Ou seja, que a prática da Caridade seria o oposto da Justiça (justiça social, neste caso).
Todos nós conhecemos aquelas formas de praticar o bem (?) como forma de aliviar a consciência; pode-se sempre procurar compensar o baixo salário com uma festa de Natal, ou dar esmola a quem se condenou ao desemprego.
Daí que se tenham levantado vozes denunciando aquele acto como “caridade”, quando o que estava em causa era a “justiça”. Mas serão estes dois conceitos antagónicos?
A caridade aparece-nos definida como “benevolência para com todos”, “indulgência para com as imperfeições alheias”, “perdão das ofensas”. Não vamos entrar pela Teologia, mas nada se perde em ver, ou rever, o que escreveu Bento XVI na sua Carta Encíclica “Caritas in Veritate” de 7 de Julho de 2009. Pois não é a Igreja a guardiã das virtudes, e o Papa o seu Chefe?
Disse, portanto, Sua Santidade:
“Estou ciente dos desvios e esvaziamento do sentido que a caridade não cessa de enfrentar com o risco daí resultante de ser mal entendida, de excluí-la da vida ética e, em todo o caso, de impedir a sua correcta valorização”.
E mais:
“Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticidade vivida” … “a caridade é amor recebido e dado: é a graça”.
E ainda:
“A caridade supera a justiça… mas não posso dar ao outro o que é meu, antes de lhe dar aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles”
Não parece haver antagonismo entre os dois conceitos. O que transparece é que a prática da caridade pressupõe o cumprimento da justiça.
Porque, podemos então concluir, sem justiça, a caridade, ou o que alguns entendem como caridade… é vã.

Nuno Santa Clara

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