Do jacobinismo tecnocráticoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Tem-se entendido o jacobinismo como a tendência para o centralismo, não só na política, como noutras áreas da vida social. Opõe-se assim ao liberalismo e ao regionalismo, defensores da dispersão dos centros de decisão e, de um modo geral, da vida pública.
Vem isto a propósito das tomadas de posição que algumas forças vivas de Lisboa tem vindo a tomar, quanto ao futuro da Área Metropolitana.
Disse um dia um político célebre que os portugueses se dividem entre os que são lisboetas e os que querem ser; tem vindo a ser repetida a frase, com o resultado que seria de esperar. Magnífico exemplo de jacobinismo, por certo, mas frase irritante para mim, apesar de quase toda a minha vida de adulto ter sido passada em Lisboa ou na sua periferia. E que eu até gosto de Lisboa, mas não abdico da minha identidade. E não esqueço os tempos da minha chegada à grande cidade, quando, à conta do meu sotaque, qualquer analfabeto me olhava com comiseração, para não dizer pior. Não era ele de Lisboa? E isso valia por um curso superior, na aplicação directa da declaração jacobina acima referida.
Não tem nada de surpreendente que haja alguma oposição de interesses entre a capital da grande metrópole e as suas periferias. Só que hoje os limites esbateram-se, e só um conhecedor é capaz de assinalar a extrema do Concelho de Lisboa. E a fixação da população nos arredores corre a par da desertificação do interior da cidade, transformada em área de serviços.
Tudo isto deveria levar a pensar Cidade e Arredores como um todo, e foi nesse sentido que foi criada a Área Metropolitana de Lisboa, e se fala na Cidade das Duas Margens, e se foram constituídos gabinetes e se estabeleceram planos para a grande região.
Mas há sempre resilientes. Como há reacções às mudanças, conservadores na política e saudosistas no fado. Terão o seu lugar, mas o Mundo não pára.
Na oposição que agora nasce (renasce?) à construção da Terceira Travessia do Tejo (TTT) há disso, e não só. Para quem já está dentro de Lisboa, o problema de quem lá tem de entrar é, encarado por alguns, mutatis mutandis, como o dos imigrantes que querem entrar na Comunidade Europeia. Não é fenómeno exclusivo de Lisboa, mas também de cidades como Londres ou Roma: nestas duas cidades, já se cobram taxas a quem lá entra, independentemen-te de saber entra para trabalhar, contribuindo para a economia e sobrevivência da cidade, ou se entra em turismo, com o mesmo benefício para a cidade. Ou seja, dentro do espírito jacobino (e mercantilista), quem cá vier que pague. Ainda que quem lá vá seja para os fazer viver.
De certo modo, é o que os franceses chamam l´esprit de clocher; não querer saber de nada que esteja para além da vista ou do som do campanário da igreja da sua aldeia.
Daqui radica uma das oposições à construção da TTT, e o nascer (renascer?) da hipótese da opção pela Ponte 25 de Abril para o TGV, ignorando os problemas técnicos dessa solução, e com desprezo pelas componentes rodoviária e ferroviária clássica que traria a TTT. O que está em causa não é uma solução técnica, mas uma tentativa de continuar a beneficiar de quem tem de entrar na cidade, sem ter de contribuir para os custos ambientais, financeiros, energéticos, de tempo e qualidade de vida que a deslocação diária impõe. O (agora) providencial argumento financeiro é falacioso; quando está em causa o desenvolvimento de toda uma região, há que ter a visão estratégica dos investimentos.
Porque, de subordinação da Economia às Finanças, já temos 48 anos de experiência. As Finanças são, decerto, a principal condicionante da Economia, e não devem definir os rumos a seguir pela Economia.
Eis porque esse jacobinismo será tudo, menos tecnocrático; é jacobinismo, puro e duro.
Nuno Santa Clara














