A GALINHA DOS OVOS DE OUROPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
E se alguém que não percebesse nada de Economia, e ainda menos de Finanças, se metesse a comentar a situação internacional?
Aparentemente, seria um absurdo completo; na prática não é bem assim, já que, de todos que comentam, apenas uma escassa minoria sabe efectivamente do que está a falar. Se todos reconhecemos que o segredo é a alma do negócio, segundo uma fórmula ancestral, no século da informação, como é o século XXI, isso é crucialmente verdade. Vejam-se (ou antes, revejam-se) as notícias vindas a lume de compra e venda de acções por preços que nada tinham a ver, aparentemente, com o mercado; não tinham, mas tiveram. A isso se chama, noutras paragens, delito de iniciado, ou uso de informação privilegiada. Delito, em qualquer caso.
(vamos manter uma certa contenção: crime é uma palavra feia; delito é mais suave)
Na revista Visão de 2 de Dezembro último (passe a publicidade) vinha publicado um artigo sobre hedge founds; se o leitor não sabe o que é, eu também não percebi muito bem.
(e se percebesse, se calhar, não estava aqui)
O que me ficou desse artigo foi uma lista das faces dos fundos, que reunia dez personagens que entre si geriam 220,7 milhares de milhões de euros. Aparentemente, nada disso tem a ver com a plantação de uma batata ou com a fabricação de um parafuso. Apenas fluxos financeiros, com maior ou menor risco.
Até aqui nada de novo; apenas aparecerem, ao grande público, algumas das caras que são responsáveis por mais de 90% das transacções financeiras mundiais, e que, como disse não têm a ver com compra ou venda de bens concretos.
Perante isto, os parâmetros de análise política e social do século XX parecem desajustados; já não se trata de exploração ou de lucros dessa exploração, mas da exploração da exploração. E por isso alguns políticos começam a falar da necessidade de regulamentação dos mercados financeiros. E não são gente de esquerda: são gente até conservadora, que vê o controlo do Mundo escapar-lhe por completo.
Caberia aqui fazer uma peregrinação por algumas figuras da Direita do século XX. Charles Maurras, o confidente de Salazar, tinha por princípio politique d´abord; Marcelo Caetano, numa das suas Conversas em Família, disse que não defendia o Capital: o Capital defendia-se bem sozinho. Mesmo eles tinham as suas tricas com os senhores do Mundo.
Ora, temos vindo a assistir a uma escalada que, se para os vindouros poderá ser uma história interessante, para nós é uma tragédia das mais negras da nossa História. Falo do nosso endividamento e da escalada dos juros da dívida pública. Nem falo das causas do endividamento, mas apenas da forma de lidar com ele.
Os senhores acima referidos dispõem dos meios para fazer variar taxas de juro, até com um pequeno investimento. Basta um artigo num jornal, dito da especialidade, para que a taxa de juro suba (ou desça, se convier), o que desencadeia um processo de compensações, decretado por Governos, que não encontram alternativas, e suportado pelos contribuintes.
Ou seja, mercê da sua capacidade financeira, os dez cavalheiros acima referidos conseguiram transformar o que era um negócio de alto risco em negócio de baixo risco, ou de risco nenhum, já que têm, à partida, a garantia dos Estados Soberanos para o pagamento dos empréstimos a juros que eles próprios decidiram.
Assim se ressuscitou a lenda da Galinha dos Ovos de Ouro.
E, pela inércia dos poderes públicos, assim será até que algum tratante faça como na história tradicional, e mate a galinha por excesso de ganância.
Finalizo com Cícero, numa das suas catilinárias: quosque tandem? (até quando?)
Nuno Santa Clara














