A sociedade portuguesa no sec.XXI: o silêncio e a solidãoPor João Saramago Tavares
Moita
Não podemos continuar na passividade, temos de voltar a inquietude dos nossos antepassados, porque disso depende o aparecimento de atitudes solidárias que irão condicionar de forma mais positiva a vida das pessoas e marcar a evolução da sociedade actual.

Por Jornal Rostos
As sociedades primitivas tinham uma organização social e económica de subsistência, baseada nas habilidades de cada um para realizar as tarefas necessárias à sobrevivência do grupo e todos sabiam exactamente o que fazer em prol de si e dos outros.
Depois, o homem/a sociedade evoluiu e surgiu a distribuição do trabalho, uma nova ordem económico-social, a especialização funcional, as classes sociais e o tempo de ócio diferenciado e compartido.
Mas não ficou por aqui, a humanidade alcançou um estado evolutivo numa estrutura socio-económica dificilmente imaginável há trinta anos atrás. Inventaram-se as empresas/instituições de todos os tipos, cada uma com características próprias onde múltiplos e diferentes factores condicionam os seus produtos.
Realmente tornámos mais eficiente o sistema em que vivemos, porque temos mais qualidade de vida, mas tornámo-lo de tal forma complicado que passamos a viver num “aflitivo stress” que tudo absorve e nos faz esquecer muitas vezes os grandes valores da sociedade e da família.
Ironia do destino, cada um de nós conta unicamente com estas empresas/instituições, quer elas sejam de cariz educativo como a escola, de feição orgânico-social como as autarquias ou mesmo relacionadas com a saúde e o bem estar como hospitais ou as de solidariedade social e muitas mais… De facto, existem empresas/instituições para tudo, mas cada um de nós está cada vez mais sozinho.
A maioria não tem tempo sequer para olhar em volta, para conhecer quem vive connosco, até mesmo dentro da nossa família. Vivemos sós rodeados de muita gente também solitária. Bombardeiam-nos a toda a hora com o que se passa no mundo distante. Sabemos tantas coisas do que está longe e ali mesmo debaixo dos nossos olhos tudo na passa ao lado, não temos tempo.
Quantas vezes já nos apercebemos de que compreendemos mais facilmente os sentimentos manifestados por personagens da telenovela do que os daqueles se sentam à mesa connosco e ou que vivem mesmo ali ao nosso lado. Mas fatidicamente esta ignorância não é só nossa.
Será que quem nos governa a nível local, regional ou nacional sabe quem somos? Será que nos conhece o suficiente para desenhar estratégias de desenvolvimento compatíveis com aquilo que efectivamente somos e desejamos ser?
E nós! Porque nos enveredamos cada vez mais pelos caminhos do silêncio e da não participação?
É necessário e urgente gritar…
Talvez esteja na hora de reflectir e dizer basta…
Cada uma destas empresas/instituições tem mesmo de se autoavaliar reflectir sobre si, olhar à volta e perceber o que está a mudar tão rapidamente. Dosear a televisão, o telemóvel e a internet e começar a conviver.
Não podemos esquecer o que nos fez homens foi o convívio com os outros, a dessiminação dos gestos e das palavras. É urgente olhar as nossas instituições, conhecer os recursos que lhes estão afectos e observar os acontecimentos. Não podemos continuar na passividade, temos de voltar a inquietude dos nossos antepassados, porque disso depende o aparecimento de atitudes solidárias que irão condicionar de forma mais positiva a vida das pessoas e marcar a evolução da sociedade actual.
João Saramago Tavares
Presidente da CPS da JSD da Moita














