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Quotidianos

Um Cartoon com palavras: A Crisepor André Pinotes Batista
Barreiro

E à chegada da Primavera estávamos todos sentados na mesma sala. Esta divisão da casa Europa era muito aprazível, pacífica e espaçosa. Nesta sala de estar de 800 por 200km, 10 milhões de pessoas observavam-nos esfomeadas por entre as altas janelas.

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Um Cartoon com palavras: A Crise por André Pinotes Batista Barreiro

Por Jornal Rostos

Quando o mordomo nos chamou para a mesa deleitei-me com os adornos. As cadeiras feitas em paus de dinamite transbordavam um entusiasmo de quem sabe, e até deseja, que dentro de instantes a piromania iria começar. A mesa, talhada em expulsivo plástico C4, era maleável permitindo diversos arranjos tácticos.

José Sócrates parecia sereno e convicto do seu futuro deixando, aqui e ali, escapar uma gracinha pseudo informal em tom de falsete. O José sabia claramente o que o aguardava, o que tinha que dizer, onde e como. Ao seu lado o académico Louça e o grotesco Jerónimo de Sousa pareciam-me falsamente preocupados mas serenos de um futuro pessoal igual ao passado.

Virei o pescoço para minha direita, quedei-me por instantes na fronte de Pedro Passos Coelho. Procurei ali o Pedro jovial de há tão poucos meses. O Pedro da voz de rádio. O Pedro da responsabilidade. Mas lembro-me hoje, como naquele dia, que tudo o que encontrei foram fundas rugas de desgaste. Tive a clara percepção de estar diante de um General cuja aparente e expectável vitória era em si mesma a mais indesejável de todas as glórias. Todo ele era angústia como se estivesse condenado a sofrer pelo destino que traçou e agora não desejava.

Os lugares à mesa estavam bem definidos... com a excepção do experiente, no entanto jovial, líder do centro direita. Sentado numa esquina da mesa, como convém, Paulo Portas pavoneava-se tão cheio de si mesmo que me fez estremecer. Aqui e ali pequenos esgares de maldade e insubordinação eram intercalados com festinhas nas pernas de Pedro Passos Coelho que se mostrava indiferente.

Cavaco Silva saudou os convidados. O cenário era surrealista. Nunca como naquela sala tinha visto tanto material expulsivo junto. Reparei que também as paredes eram feitas em TNT. O ambiente adensou-se de tal modo que por instantes julguei que a sala se iria fechar sobre si mesma. Os olhos dos nossos líderes fitavam-se como se de uma parada mexicana ao estilo do velho faroeste se tratasse. Nunca me vou esquecer da forma como em uníssono todos se transfiguraram, comprimiram os lábios um contra o outro e empregaram expressões pesadas de quem aparentemente se preocupa com os milhões de mirones que desesperadamente se mantinham pendurados no beiral.

Empunhavam mil adagas e milhares fósforos transbordavam nos bolsos dos fatos, caindo aqui e ali para o chão. Todos queriam despoletar a crise pirotécnica mas a encenação era indispensável. O Povo estava à janela. Não podiam, nunca, de forma alguma, deixar transparecer a sua sede por labaredas.

De repente os Iphones dos 5 líderes tocaram. Cavaco suspirou. Era uma notificação da actualização da Página do Presidente no Facebook. Um pequeno texto onomatopaico que dizia "BUM!"

André Pinotes Batista

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