Existe mesmo falta de médicos de família?Por Germano Couto
Fazer a limpeza de ficheiros nos centros de saúde. Fazer a reinscrição obrigatória para actualização de dados, com importância acrescida para a morada. Uma reinscrição sábia e sensata. Uma reinscrição que é sustentáculo da melhoria do desempenho das instituições na prestação de cuidados de saúde.

Por Jornal Rostos
A reestruturação dos cuidados de saúde tem-se pautado por medidas concretas e incisivas, há muito necessárias, em prol duma melhor racionalização de recursos, duma diminuição do desperdício e da despesa e, consequentemente, da tão desejada obtenção de ganhos em saúde.
Mas, infelizmente, nem tudo é perfeito. E um dos pontos mais fracos na reconfiguração dos Cuidados de Saúde Primários é a contínua falta de acessibilidade dos cidadãos a cuidados universais. A tão famigerada e publicitada falta de médicos de família – acepção redutora e discriminatória para os restantes profissionais e pejorativa para os utentes que procuram e necessitam, na sua grande maioria, apenas de cuidados de Enfermagem – pode não ser tão precisa!
Só no concelho do Porto, por exemplo, existirão cerca de 50.000 utentes sem médico de família! Nas últimas décadas, assisto à redução dos seus habitantes, pelo êxodo do centro urbano para a periferia, e constato, de forma proporcionalmente inversa, um aumento da taxa de utentes inscritos não utilizadores nos centros de saúde. Aumento cimentado na existência de uma nova tipologia de utente: o não utilizador. O utente não utilizador dos serviços de saúde e que inquina as listagens dos agrupamentos de centros de saúde facilitando a construção conveniente da mera leitura estatística que correlaciona número de utentes por recursos médicos!
Outro aspecto caricato é o utente duplicado inscrito em mais do que um centro de saúde! No Norte do país, outro exemplo, estima-se que o número seja algo tão disparatado como 60.000! Também temos os emigrantes inscritos e não utilizadores e os óbitos que ainda “vivem” nas listas! As inscrições obrigatórias de cidadãos de outros subsistemas, para necessidades pontuais e que não utilizam a sua equipa de saúde, assídua e conscientemente, completam o puzzle. Uma limpeza automática e adequada dos ficheiros por famílias não utilizadoras levantará o véu: calcula-se que só no Porto haja mais de 20.000 utentes não utilizadores!
É patente a ineficiência do sistema! Existem médicos com listas de 1500 utentes e apenas uma fatia destes representa reais utilizadores!
Portugal quer crescer e para isso tem de ter coragem política para tomar decisões que, muitas vezes, contrariam vontades e interesses. Não se trata de impedir o acesso a ninguém. É tão-somente melhorá-lo. Dar oportunidade e preferência a quem dele mais necessita. Importa agir! Fazer a limpeza de ficheiros nos centros de saúde. Fazer a reinscrição obrigatória para actualização de dados, com importância acrescida para a morada. Uma reinscrição sábia e sensata. Uma reinscrição que é sustentáculo da melhoria do desempenho das instituições na prestação de cuidados de saúde.
Que política moral existe perante um utente não utilizador dos cuidados de saúde com médico de família atribuído e um utente utilizador necessitado e sem médico de família? A ineficiência e a irresponsabilidade política dos (in)decisores deve ser questionada. Não multipliquemos os utentes, mas sim os cuidados de saúde.
Germano Couto
Enfermeiro














