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Quotidianos

Afinal, quem manda aqui?Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Então, porque não votar na Banca, organizada, politizada, regionalizada, matizada, popularizada?
Porque não faz sentido. Como se tem visto, a Banca é uma comunidade de interesses, unida e fechada. Se fosse um partido, seria um Partido Único. Então, para quê votar?

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Afinal, quem manda aqui? Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Vêm aí eleições, e dizem que estas são importantes e decisivas, pelo que se pode concluir que as anteriores não foram nem uma coisa nem outra.
Há muito tempo atrás (a noção de tempo é relativa, disse Einstein) deu-se uma cena, ou facto político, que a muitos terá passado despercebido. Pouco depois de ter assumido a liderança do PSD, Passos Coelho teve um encontro com os representantes máximos da Banca.
Ora a Banca não tem preferências políticas; ou melhor, prefere aqueles que estão de acordo com o que ela pretende. Portanto, se Sócrates foi bom quando garantiu a cobertura das especulações financeiras que estão na origem das nossas actuais desgraças, isso não impede que agora prefiram Passos Coelho, que estava mais inclinado a pedir ajuda imediata no exterior, que é o que a Banca defendia.
Portanto, o primeiro encontro com Passos Coelho não foi um facto menor; foi um reconhecimento público, mas também talvez uma sondagem, ou um exame de estado: vamos lá ver se este serve. Do que se tratou, ninguém sabe; mas decerto algo ficou em carteira.
Também ninguém sabe se a Banca ficou ou não satisfeita com a queda do Governo; dir-se-ia que não, uma vez que os ratings baixaram e os juros (externos) subiram. Ou talvez tivessem gostado, por considerar o Governo Sócrates esgotado e, a crer no que se tem dito e escrito em certas áreas do PS, parece que sim.
A Banca, como se vê, é uma criatura volúvel, mudando facilmente de afectos. Mas nem por isso parece perder o charme. Lembra aquelas mulheres fatais dos romances do século XIX, que semeavam amores, ódios, rancores, paixões, assassinatos e suicídios, ficando elas quase puras, quando tudo à sua volta se desmoronava. Ou como a Carmen, de Bizet: continua a ser a heroína, enquanto o pobre D. José sucumbe.
E tal como as mulheres fatais são ingratas, a Banca também o é. Tal como Cármen foi indiferente a que D. José tivesse desertado por amor dela, para a Banca foi irrelevante que o outro José tivesse abdicado do socialismo por ela.
O que aqui se diz, ironicamente, tem sido escrito, em livros e artigos sérios; mas, até agora, não houve vontade ou força política para regular os mercados financeiros. Foram mesmo proferidas declarações solenes de figuras importantes, mas nada, até agora, se alterou. Porque a crise ameaça sempre o vizinho do lado, e nem quando as barbas dele ardem pomos as nossas de molho.
Teremos pois eleições, importantes e decisivas, para ver quem manda. Mas nada de confusões: quem mandar, fá-lo-á com irrepreensível e indiscutível mandato do Povo. Mas, por detrás desse mandato soberano, recortar-se-ão aquelas figuras que já todos conhecem, e que personalizam a Banca. Parecem ténues e diáfanas, num contra-luz que esbate as silhuetas, mas estarão lá.
Como estiveram em Belém, em S. Bento e noutros lugares. Com o seu ar comedido, prenhes de boas intenções, simpáticos mesmo, mas cortantes nas suas declarações.
Quem for eleito já deve saber com o que pode contar; uma vez que já todos foram esclarecidos.
Então, porque não votar na Banca, organizada, politizada, regionalizada, matizada, popularizada?
Porque não faz sentido. Como se tem visto, a Banca é uma comunidade de interesses, unida e fechada. Se fosse um partido, seria um Partido Único. Então, para quê votar?
E assim iremos ao sabor de quem manda. Mas não se esqueçam de votar; se não, a quem irá a Banca dizer o que pretende?

Nuno Santa Clara

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