A CrisePor Pedro Pires
Seixal

Por Jornal Rostos
Vivemos em tempos de Crise, não há como o negar. O FMI está à porta, e toda a gente se queixa. Vão-nos cortar isto e aquilo, e parece o fim do mundo. Eu queixo-me, tu queixas-te, ele queixa-se. É dos verbos mais conjugados nos últimos temos. A culpa é deste e daquele, até do jogador chinês, mas nunca minha. A mim parece que só me roubam.
Ainda assim, o povo português dá a entender, no entanto, exactamente o contrário. Os cafés estão cheios, as agências de viagens com as reservas esgotadas, e as discotecas a abarrotar. A crise de que tanto se fala, a crise que nos corta os ordenados, não se vê por ai. A mim foi-me aprovado o crédito para a televisão Full HD, e tu tens um espetacular telemóvel topo de gama. Se não fosse o empréstimo que já temos para a casa, para o carro, e para ir de férias, juntando ao facto de mal haver dinheiro para comer, tudo estaria bem.
Temos, claramente, de acabar com esta atitude consumista, de nos habituar a não gastar desenfreadamente. Temos de deixar de comprar mais do que podemos, de possuir dois carros, e cinco telemóveis. Temos também de começar a deixar de culpar o vizinho, e de começar a tratar da nossa galinha e do nosso quintal.
Até pode ser que rir, e gastar, seja o melhor remédio. Não consigo é compreender como se pode ter uma vista tão curta, despreocupada e leviana. Urge ensinar aos portugueses como poupar, e que o dinheiro não se multiplica. Pelo menos não através do crédito consecutivo. É necessário incutir nos portugueses o hábito de pensar duas vezes antes de puxar pelo cartão de crédito. É duro, triste até, mas é onde estamos.
Não nos enganemos, a crise existe, e é grave. Existe. Não é principalmente económica nem financeira, é sim, mais profunda, e é de valores. Não existe hoje quem queira trabalhar sem receber muito mais do que aquilo que ganha no fundo de desemprego para nada fazer, não existe quem se aplique só porque ache que assim é que deve ser, nem quem se queira sujeitar a suar, quando já recebe o rendimento social de inserção. E este, por pouco que seja, a dividir por nada é demasiado.
É, de facto, muito desesperante. Mas é, também agora, que devemos aproveitar para combater esta Crise, apoiando quem de esforça, quem não de resigna, quem faz algo por si, e ao mesmo tempo por todos nós. Porque nunca o conseguiremos penalizando quem já produz. O caminho mais acertado é sem dúvida promover o trabalho, junto de quem já perdeu a esperança, de quem acha que já não vale a pena, ou mesmo junto de quem é simplesmente preguiçoso. Porque é apenas contando com a grande maioria dos portugueses que podemos dar a volta a isto, que podemos singrar.
Pedro Pires
JSD Seixal














