Saltar para o conteúdo
Quotidianos

A never ending storyPor Nuno Santa Clara
Barreiro

O paradoxo é aparente. Bin Laden foi uma figura criada e apoiada pelos americanos, quando o inimigo comum era a União Soviética. Os serviços secretos paquistaneses tiveram parte importante nessa operação, e criaram uma teia de cumplicidades cujo resultado está à vista.

4 min de leitura
A never ending story Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Todos s e devem lembrara deste filme, aparentemente para crianças, mas apreciado pelos adultos. Tratava-se de uma fantasia, mas há quem precise de fantasia. Por mim, penso que a realidade é muto mais rica e estimulante que a fantasia – e há lances que não ficam atrás da imaginação do criativo mais talentoso.
Que precisamos de sonhar não restam dúvidas; e o País que criou o sebastianismo pode dar cartas ao Mundo nessa matéria. Como escreveu Fernando Pessoa, mais vale esperar por D. Sebastião, quer ele venha, ou não.
Foi abatido Ossama Bin Laden, figura que tinha algo de D. Sebastião. Durante anos foi diversas vezes dado por morto, para reaparecer mais tarde, não envolto em nevoeiro, mas mais prosaicamente na Internet. E onde esteve ele todo este tempo? Refugiado em montanhas inacessíveis? Escondido em grutas profundas?
Não. Simplesmente em sua casa! Pelo menos nos últimos tempos. Em sua casa, junto a um complexo militar, perto da capital de um País formalmente aliado dos Estados Unidos.
O paradoxo é aparente. Bin Laden foi uma figura criada e apoiada pelos americanos, quando o inimigo comum era a União Soviética. Os serviços secretos paquistaneses tiveram parte importante nessa operação, e criaram uma teia de cumplicidades cujo resultado está à vista. E o interessante é lembrar que muitos analistas sempre disseram que Bin Laden devia estar no Paquistão – o tal aliado de quem os EUA não podiam duvidar. Mas sempre se pensou que estaria algures nas remotas e mal controladas áreas tribais; mas na capital e ao pé de quartéis!
Várias reflexões são de fazer sobre este caso.
Em primeiro lugar, por muita tecnologia que se empregue nos serviços de informações, nada substitui a informação no terreno. E, ainda por cima, é mais discreta e barata.
Em segundo lugar, é a primeira vez que se assiste às Forças Armadas americanas levarem a cabo a uma operação tipo comandos, ou de forças especiais, com efectivo reduzido, terminando com êxito completo. Basta lembrara os fracassos de Teerão ou de Mogadíscio e os meios envolvidos nessas operações. Estavamos habituados a ver bombardeamentos, normalmente com danos colaterais, ou ataques com mísseis de cruzeiro, mas algo mudou por aquelas bandas.
Não sei quantos filmes serão feitos sobre este tema, mas pelo menos espero que seja o fim das “rambalhadas”. Como disse, a realidade é mais rica que a fantasia.
Em terceiro lugar, sobrou um corpo. O cadáver de Bin Laden vale tanto que deve estar a caminho de Fort Knox, para ser integrado na Reserva Federal. Mas nem há 48 horas morreu, e temos um novo sebastianismo em marcha. A ocultação do cadáver de Hitler só veio a ser esclarecida nos anos 90; será que o de Bin Laden vai ter a mesma sorte? Pessoalmente, não creio que tenha simplesmente deitado ao mar.
Em quarto lugar, há que realçar a postura do presidente Barak Obama. Claro que ele é o Comandante Supremo das Forças Armadas, e uma operação deste tipo teria de ter o aval dele. Mas, ao assumir a responsabilidade directa da condução política da guerra, para além de quaisquer dividendos eleitorais internos, deu cobertura às suas tropas no terreno.
Diga-se, de passagem, que matar o chefe inimigo nem é novidade. Lembremos o abate de Jonas Savimbi, que pôs termo à guerra civil de Angola. Ou a obra clássica de Thomas More (ou Tomás Morus, se preferem), sobre a Ilha da Utopia: quando alguém ameaçava o Estado, o governo punha a cabeça do rei adversário a prémio, e pagava escrupulosamente o prometido, garantindo assim a Paz na Ilha.
Em quinto lugar, quem está ainda no comando das tropas americanas no Teatro de Operações é o general David Petraeus, já por mim referido noutro artigo, pela sua abordagem “soft” da guerra, contrária à tradição americana. A regra é a daquele general que, quando lhe foi chamada a atenção para o número de vítimas civis, respondeu que era um marine, e só sabia fazer as coisas daquela maneira.
Ora, o general Petraeus foi agora indigitado para chefiar a CIA – nem menos. Será que termos, também aí, algumas mudanças? É que os anos Bush deixaram marcas.
Finalmente, estamos todos em alerta vermelho, porque a morte de Bin Laden não deixará de provocar retaliações.
E aqui voltamos ao título deste artigo: a never ending story. Da qual, ao menos, devia ser tirada a lição de que é fácil soltar o Diabo; difícil é metê-lo outra vez no saco.
Ou, já que falamos em fantasia, recordar o Aprendiz de Feiticeiro.

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção