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Quotidianos

A diáspora portuguesa e a geração à rascaJoão Saramago Tavares
Moita

Durante o sec. XX fizemos do interior do país um armazém de gente idosa, o que vamos fazer agora ao litoral? Que país e que sociedade são estes que não conseguem acreditar de que somos capazes de inverter, a nosso favor as muitas capacidades que os outros nos atribuem.

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A diáspora portuguesa e a geração à rasca João Saramago Tavares Moita

Por Jornal Rostos

Será Portugal um país onde sempre existiu uma geração à rasca que deu substância e/ou engordou os contingentes da emigração portuguesa através dos tempos?
Desde a fundação da nacionalidade (1143), até ao séc.XV são raros os episódios descritos na História sobre a emigração português, embora possamos vislumbrar a presença de portugueses em quase todo o mundo conhecido de então.
Desde o início do séc. XV até 1960 orgulhamo-nos ao encontrar um nome, um vestígio arquitectónico e/ou cultural português em todo o mundo, de Oriente ao Ocidente, do Norte ao Sul. São homens maioritariamente analfabetos e do interior do país que transpõem oceanos, enraízam-se e misturam-se com os autóctones em qualquer parte do mundo. Acreditamos que também esta foi uma geração à rasca, pois a motivação não podia ter sido unicamente o aventureirismo ou a ganância. A História diz-nos que os portugueses nunca foram verdadeiramente colonialistas, sempre nos misturamos e respeitamos culturas.
Quando se apuraram os resultados do Senso 1970 houve uma surpresa terrível: Portugal tinha perdido pelo menos 226 140 pessoas ( a população residente passou de 8 889 392 em 1960 para 8 663 252 em 1970, segundo o o INE). Nem o saldo migratório ( Imigração – Emigração) nem o saldo fisiológico ( Nascimentos – Óbitos) explicava este facto. Na verdade, foi a emigração clandestina de famílias inteiras maioritariamente analfabetas e do interior do país que desta vez escolheram como destino a Europa. Mais uma vez a motivação tinha a ver com a melhoria das condições de vida e o sustento dos que ficavam, os mais velhos. Também foi esta geração à rasca que durante anos, com as suas remessas equilibrou a balança comercial do país.
Depois disso o fluxo, segundo as estatísticas, diminuiu mas não passou a ser irrelevante, os valores têm oscilado nos últimos anos entre 20 000 e 30 000 ocorrências.
No período de transição do séc. XX para o séc. XXI com a entrada de Portugal no espaço Schengen Portugal torna-se numa placa giratória, passou a receber de forma legal e ou ilegal gerações à rasca de outros países que vêm em busca do “El Dourado” europeu. É hoje frequente ouvirmos falar ao nosso lado idiomas dos países de leste ou do extremo oriente, mas também um português com sotaque brasileiro ou africano.
Durante algum tempo tivemos a ilusão que a sangria tinha diminuído drasticamente, mas logo de forma empírica foi-nos dado concluir que o fluxo continua. A crise económica e o desemprego são factores que sempre incentivaram a emigração que por sua vez vai ganhando maior heterogeneidade na sua composição.
O emigrante português tem agora outras características, quem engorda os contingentes emigratórios são aqueles quem têm níveis de instrução elevados como o secundário completo ou os licenciados e oriundos maioritariamente do litoral das regiões de maior poder económico. É uma geração à rasca mais instruída que procura fora de portas aquilo que o país não é capaz de lhe dar, mas que fica a chorar amargamente a sua falta.
Durante o sec. XX fizemos do interior do país um armazém de gente idosa, o que vamos fazer agora ao litoral? Que país e que sociedade são estes que não conseguem acreditar de que somos capazes de inverter, a nosso favor as muitas capacidades que os outros nos atribuem.
Pensamos que se adoptarmos a filosofia de Heráclito de Éso ( filósofo grego do séc. V a.c.) ninguém pode banhar-se duas vezes nas águas de um rio, porque este é um entidade em movimento perpétuo da nascente até a foz, também os tempos do nosso país são diferentes e por isso não podemos sistematicamente mergulhar nos mesmos erros.
É urgente que esta geração à rasca venha construir um Portugal melhor.

João Saramago Tavares
Presidente da JSD Moita

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