Por que razão o velho aforismo "ninguém é insubstituível" não se aplica a Louçã, nem a Portas PauloPor António José Carvalho Ferreira
Barreiro

Por Jornal Rostos
A clássica reivindicação tribal da cabeça do líder em caso de desaire, esbarra, no caso do Bloco, numa impossibilidade logística. O Bloco de Esquerda não é um "partido" no sentido tradicional do termo é, aliás, como o nome não esconde, um "bloco" de forças da velha extrema-esquerda (a UDP, o PSR), da área de uma certa Renovação Comunista (a Política XXI) e muitos outros, desde ex-MRPP até radicalistas folclóricos (a FER) e muitos independentes de gauche. O Bloco conseguiu fazer uma certa "quadratura do círculo" e reunir num projecto comum o realismo estalino-enverhoxista da UDP (excepto o grupo do, entretanto falecido, Francisco Martins Rodrigues, a "Política Operária", que ficou de fora por não alinhar com as "causas fracturantes" - afinal a "classe operária" não quer nada com droga e homossexualidade) - e o brilhantismo trotskista de Louçã - algo que, na esquerda clássica, equivale a misturar água e azeite.
Louçã é um intelectual da velha guarda, um homem inteligentíssimo, revolucionário precoce, é da minha geração e da minha idade (n. 1956) e esteve na Capela do Rato, orador de grande fôlego tribunício, temível em debate (ainda hoje estou para entender como se pode ter deixado "enrolar" pelas patranhas do Sócrates na Campanha Eleitoral de 2009 e não lhe ocorreu contrapor ao trampolineiro que o seu próprio Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, tinha já dito que dedução fiscal dos PPR era para acabar e afinal o esbulho à "classe média" vinha do próprio governo do PS).
Ora, defenestrar Louçã significaria o suicídio político do Bloco, porque não será certamente em Fazenda ou numa das guapas deputadas eleitas que se encontrarão a solidez teórica e a verbosidade suficientes para manter o Bloco como força parlamentar - o que, já de si, foi uma proeza.
Agora, não ter ido conversar com a "Troika", suspender as causas fracturantes, se bem que o PS tenha dado um golpe de mestre ao ter como deputado Miguel Vale de Almeida, e jogar no puro terreno do PCP/CDU, foram erros crassos que o Bloco pagou com a perda de metade do Grupo Parlamentar, regredindo aos oito deputados de 2005.
O Bloco tem que livrar-se do discurso assolapado do politicamente correcto, do namoro permanente ao "lumpen", que como Marx e Lenine bem avisaram é perigoso por contraproducente, e tem de mostrar o seu empenho na via da democracia socialista, única resposta política, económica e, por que não dizê-lo, moral, face à choldra onde o capitalismo selvagem nos trouxe.
Cuidado ainda, porque o PS na oposição é sempre de "esquerda" e o Bloco pode secar ainda mais.
Não pode e como ele o CDS com Portas, é "livrar-se" de Louçã.
António José Carvalho Ferreira














