Crer para verPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Isso mesmo, não se trata de um lapso.
Fomos criados segundo o lema do ver para crer, e com muitos e sábios exemplos, e mesmo a tradição cristã refere um caso famoso. Conforme se conta, S. Tomé não estava presente quando da primeira aparição de Cristo Ressuscitado aos Apóstolos, e usou a fórmula: ver para crer. Em nova aparição, viu-se S. Tomé confrontado com a figura de Cristo, e então acreditou. Mas não deixou de levar um reparo: felizes os que acreditam sem ter que ver.
Sendo assim, parece que estamos todos no caminho da felicidade. Acreditamos sem ver, ou melhor, sem ler, sem estudar, sem esclarecer as alternativas que nos são postas, ou aquilo que nos é proposto (por vezes, as alternativas são virtuais…).
Como no futebol: de nada vale gravar aquele lance polémico, de vários ângulos e em câmara lenta. Haverá sempre quem jure que está em fora de jogo, e quem jure que não está. Crer para ver, e não ver para crer.
E mais: quem levantar uma ponta da dúvida arrisca-se a ficar mal visto. Com aconteceu com o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, quando numa das suas idas à Televisão estranhou que nenhum dos candidatos mais candidatos ao Governo se tivesse referido às questões concretas da troika.
Então, em que se baseiam as nossas opções?
Aparentemente, não no exemplo de S. Tomé, mas na reprimenda que se seguiu: felizes os que acreditam sem ter necessidade de ver. E assim vamos acreditando no que nos convém, confortados naquela certeza miraculosamente obtida.
Quem melhor interpretou essa ideia foi Fernando Pessoa, que num pequeno poema escreveu:
Melhor é esperar por D. Sebastião,
Quer ele venha, ou não.
E assim vamos vivendo, no crer para ver; manifestação superior do espírito, pois qualquer animal vê, e crê; crer para ver é exclusivo da espécie humana.
Nuno Santa Clara














