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Quotidianos

Transferência de culpaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Na tradição judaica, uma vez por ano, por ocasião do Yom Kipur, era escolhido um bode que era separado do rebanho, carregado simbolicamente com os pecados do povo, e abandonado no deserto, com o resultado que se adivinha. Essa figura do bode expiatório passou à nossa religião e até à psicologia de massas.

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Transferência de culpa Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

A transferência de culpa é uma das armas políticas mais antigas, mas nem por isso deixou de ser eficaz. Isto apesar de estarmos, ao que se diz, na sociedade do conhecimento. Mas o acesso a esse conhecimento, aparentemente generalizado, democratizado e globalizado, está ainda longe de merecer esses três adjectivos.
Na tradição judaica, uma vez por ano, por ocasião do Yom Kipur, era escolhido um bode que era separado do rebanho, carregado simbolicamente com os pecados do povo, e abandonado no deserto, com o resultado que se adivinha. Essa figura do bode expiatório passou à nossa religião e até à psicologia de massas.
Pois bem, a tradição continua. Desta vez, na sequência de sabe-se lá de que experiências ou práticas agrícolas, declarou-se na Alemanha um epidemia de Escherichia coli, bactéria desde sempre presente nas nossas vidas mas que, tal como o esterno-cleido-mastoideu, se viu catapultada para a fama através da comunicação de massa; agora não pela boca de Vasco Santana, mas pela voz de uma alta autoridade alemã que, em vez de mandar investigar a origem da epidemia, carregou os pepinos e os agricultores espanhóis (e, por tabela, os portugueses e outros) com os pecados dos agricultores alemães. E teve meios para o fazer!
De onde se prova que a generalização, democratização e globalização do conhecimento anda longe da precisão e objectividade; quanto mais da perfeição!
Também ninguém se preocupou em saber como se teria dado a contaminação dos pepinos com uma bactéria que se transmite pela matéria fecal; mas é legítimo imaginar o que teria sido feito com os pepinos para essa contaminação, antes de serem comidos, ainda por cima mal lavados.
Em consequência, foi decretada uma ajuda aos agricultores, natural e tradicionalmente inferior ao prejuízo, a pagar pela Comunidade Europeia (nova transferência de culpa), pelo que teremos todos de pagar a irresponsabilidade de alguém que, como na Bíblia, entendeu carregar os outros com os pecados próprios…
Neste caso, além da transferência de culpa, houve uma transferência de conta…

Nuno Santa Clara

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