Os ricos (do costume) que paguem a crise!Por Jorge Fagundes
Barreiro
"Cá por mim, não. Mas se o julgas, parabéns".
"E mais, muito mais. Segundo ouvi na televisão, um senhor que me dizem ser ministro, garantiu que se tratou de uma repartição dos sacrifícios mais justa".
"Achas?"

Por Jornal Rostos
Hoje, após o almoço e quando me dirigia para a habitual cavaqueira no Café do Barreirense, fui chamado pelo meu velho colega da Escola Alfredo da Silva, comodamente sentado à mesa de uma das esplanadas junto ao Mercado Municipal 1º. de Maio.
"Então, que fazes por aqui? Não é normal ver-te por estes lados a esta hora".
"Embora o tempo não esteja grande coisa, resolvi vir beber uma bica depois do almoço".
"Mas, agoro reparo. Estás com um ar prazenteiro. Que se passa de especial?"
"E tenho razões para isso, meu velho amigo. Como sabes, após quarenta e cinco anos de trabalho, passei à situação de reformado. E, ao longo de tanto tempo, apenas tive uma baixa quando da chamada gripe asiática".
"Mas isso é comum a muito boa gente".
"Está certo. Mas, além de me sentir como potencial candidato a uma medalha do Barreiro reconhecido, tive ontem uma grande alegria".
"Desembucha, homem, desembucha".
"Como é do conhecimento geral, o novo Governo deu-nos a conhecer duas medidas de alcance extraordinário".
"Deu? Quais?
"Reflete um pouco, meu caro, reflecte. Por um lado, definiu claramente que três milhões de portugueses são ricos, e, por outro lado, decidiu que nessa situação (e sem pagar direitos de autor a quem, na Assembleia da República, o defende) devem ser eles a pagar a dita crise".
"Essa é boa! Explica-te, explica-te".
"É fácil, é fácil. Então o chamado imposto extraordinário não vai só incidir sobre cinquente por cento do subsídio de Natal cujo valor ultrapasse os 485 euros do salário mínimo?
"E depois?"
"Meu amigo, estás mesmo desatento. Segundo li há pouco, são três milhões os portugueses (ao serviço, reformados ou pensionistas) que vão ser abrangidos. Ou seja, são ricos. E eu, com os meus mil euros mensais de reforma, estou incluido. Não devo estar feliz?"
"Cá por mim, não. Mas se o julgas, parabéns".
"E mais, muito mais. Segundo ouvi na televisão, um senhor que me dizem ser ministro, garantiu que se tratou de uma repartição dos sacrifícios mais justa".
"Achas?"
"Claro que acho. Mais justa não poderia ser. Repara bem: todos os ricos contribuem com 50%. E eu, novo rico, estou, percentualmente, com os meus mil euros mensais, no mesmo nível daqueles senhores, e são tantos, que, em meia dúzia de anos de exercício de certos cargos, auferem aquilo que os jornais costumam designar como reformas milionárias. É justo, não é?"
"Olha, mudemos de assunto. Que dizes do facto do nosso Barreiro, após décadas de declínio populacional, ter estabilizado entre 2001 e 2011?"
"Não me digas. Não sabia".
"Segundo os dados conhecidos, entre 2001 e 2011, a população residente barreirense aumentou trinta unidades".
"Boa notícia. E uma vez que referi a chamada gripe asiática, cá por mim isso foi obra dos chineses".
"Essa agora!"
"É o que penso de momento. Além da função social que exercem praticando preços mais baixos em lojas sempre abertas todos os dias da semana, fixaram-se no Barreiro e, como vês, a população residente aumentou".
Jorge Fagundes














