A galinha dos ovos de ouro IIPor Nuno Santa Clara
Barreiro
A estratégia, essa mede-se a longo prazo. E o objectivo estratégico é o fim do euro, essa malvada moeda que faz frente ao dólar, que começou com a paridade em relação a ele, que, depois de altos e baixos, teima agora em manter-se bem acima dele.

Por Jornal Rostos
Lá por Fevereiro do corrente ano, houve quem tivesse a bondade de publicar um artigo meu, intitulado “A galinha dos ovos de ouro”.
Aí se dizia que alguns senhores dispunham dos meios de fazer variar taxas de juro, até com pequeno investimento; bastava um artigo num jornal (ou meio electrónico mais actual) para fazer disparar as taxas, com o consequente endividamento público e privado, apesar de todas as garantias de governos, bancos centrais e instâncias internacionais. Em suma, um negócio de alto risco transformado em baixo risco, e daí a comparação com a galinha dos ovos de ouro.
Cinco meses passados, eis o País (e o Mundo) surpreendido com a classificação de “lixo” dada à dívida e à banca portuguesa, apesar de todas as garantias externas e internas de fiabilidade e da profissão de fé de contenção orçamental do novo Governo de Portugal.
Com a parte tragico-cómica de que a nossa Banca paga chorudas avenças a agências que se entretêm a denegri-la; se não é masoquismo, anda lá perto.
Tudo é relativo, sabemos nós, e sabíamos mesmo antes de Einstein ter formulado a teoria da relatividade. Se não, vejamos: os Estados Unidos têm um deficit orçamental de cerca de 10% do PIB, uma dívida pública superior a 100% do PIB, e este tem crescido a nível inferior a 2%. E o Banco Federal emitiu em 2010 seiscentos mil milhões de dólares em moeda, deixando a perder de vista Alves dos Reis e a sua emissão pirata de notas de quinhentos escudos. E, notícia de última hora, o Presidente Obama reuniu com representantes dos dois partidos para aumentar o nível de dívida pública.
Num país europeu (o Terceiro Mundo não conta para esta gente) estes números levariam à classificação de “lixo”. Mas não. Segundo a tristemente célebre Moody´s, os Estados Unidos estão classificados como AAA! Os chineses, mais circunspectos, ficaram pelo AA; mas também não lhes interessa uma crise na economia americana.
Tudo é relativo, portanto. Como se fosse uma versão, agora capitalista, do “duplipensar” de George Orwell em “1984”. Os números, por si só não chegam: tem de haver uma interpretação dos ditos, em função das conveniências.
Ora, isto leva-nos ao fundo da questão: há motivações nesta crise que transcendem a economia; há mesmo quem diga que nem tem a ver com a economia. Trata-se de uma crise que tem a ver com o excesso de liquidez (petro-dólares, narco-dólares, e sabe-se lá que mais), com fluxos financeiros incontrolados (e não taxados) e com objectivos estratégicos que se vão adivinhando.
É uma guerra, e como em todas as guerras há táctica e estratégia.
A táctica revela-se pelos ganhos a curto prazo. As variações das taxas de juro são um bom exemplo. Ataca-se o lado mais fraco, como o faria qualquer general avisado: provoca-se o pânico no adversário, desorganiza-se a defesa, procura-se desfazer as coligações. Depois, tal como Napoleão, bate-se o inimigo, ainda que superior, por partes.
Não estamos a ver tanto alguns alemães como alguns portugueses defender a saída do euro? Não pelas mesmas razões, mas o resultado prático seria o mesmo.
A estratégia, essa mede-se a longo prazo. E o objectivo estratégico é o fim do euro, essa malvada moeda que faz frente ao dólar, que começou com a paridade em relação a ele, que, depois de altos e baixos, teima agora em manter-se bem acima dele. E pior: o euro tende a constituir-se como moeda de referência, e, como se viu atrás, com maiores garantias de solvência que o dólar.
Todo arrazoado sobre as virtudes do liberalismo, com raízes na célebre expressão “laissez faire, laissez passer”, está ferido pelo desenvolvimento social dos últimos dois séculos. E mais: para o observador atento, o liberalismo económico é sempre invocado pelo forte, quando pretende dominar o fraco. Quantas vezes assistimos ao erguer de barreiras proteccionistas por defensores do liberalismo, quando se sentem ameaçados? Como os Estados Unidos em relação aos automóveis japoneses, ou aos aviões comerciais europeus.
Da teoria à prática vai um abismo. O actual Governo veio embalado numa onda de mudança, supondo que uma maior abertura da economia às teses liberais, desejada ou imposta, seria a panaceia para os nossos problemas. Não podia ser mais cruel a desilusão: os amigos da véspera são os inimigos de hoje; as referências firmes tornam-se no mínimo, dúbias . Depois de anunciadas as drásticas medidas de contenção, com prejuízo da economia real, depois de anunciadas todas as garantias supranacionais, eis a classificação de “lixo”. Felizmente, ou melhor, ajuizadamente, o BCE decidiu ignorar esta classificação. E já se propõe em altos brados a condenação das agências americanas de rating, e a criação de uma agência europeia com as garantias de seriedade (ou seja, de controlo político).
A medida só peca por tardia, pois já há muitos prejuízos acumulados. Mas mais vale tarde do que nunca.
Porque, sob a capa dos muitos sorrisos, é de uma guerra sem quartel que se trata. Como disse um dos ilustres fazedores de ratings, é uma guerra dos ricos contra os pobres, e os ricos estão a ganhar.
Nuno Santa Clara














