Os reis do LixoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
O concelho do Barreiro, e mais concretamente a Freguesia de Coina, contam no seu património uma curiosa construção. É a conhecida torre de Coina. Sobre ela muitas coisas se contam, entre elas que o seu construtor era proprietário em Alcácer do Sal, e fez uma torre suficientemente alta par que pudesse ver as suas vacas. Esta interpretação não passa de uma lenda, mas a decisão de construir naquele local uma cópia de um palácio da renascença italiana marcou a paisagem, e até os pilotos militares usam a torre como referência.
A verdade é que a torre foi mandada fazer por Manuel Martins Gomes Júnior, conhecido por “Rei do Lixo”, isto porque arrematou a recolha do lixo de Lisboa, e, com essa matéria-prima, transportada para Sul do Tejo nas suas fragatas, alimentou porcos em número suficiente para fazer fortuna.
Falta de legislação apropriada, diríamos hoje: nos tempos actuais seria de todo impossível alimentar com lixo porcos destinados ao consumo humano. Ou, aplicando um conceito mais abrangente, chamar-se-ia hoje desregulamentação.
Ora, foi também uma desregulamentação que deu origem à nossa situação actual, pela qual viemos a ser classificados como lixo. Por falta de vontade política e da consequente regulamentação, sobretudo a nível europeu, deita-se para o lixo o que foi considerado sem valor. Mas será assim? Às classificações das agências americanas de rating opõem-se as instâncias europeias, ainda timidamente, pois só agora parecem ter percebido que isto da classificação da dívida não é um critério igual para todos, e até Angela Merkl já defende a ideia de uma agência de rating europeia. Porque, se o critério das agências fosse uniforme, os Estados Unidos da América estariam a par da Europa do Sul.
Mas não faltarão os “reis do lixo” que engordarão, a si e às suas varas de porcos, com o que foi considerado lixo, com a vantagem de terem sido eles mesmos a fazer a classificação e a fazer a arrematação do lixo. E nisso batem aos pontos no nosso Manuel Martins Gomes Júnior: é que ele apenas arrematou o lixo, e não teve poderes para decidir do que seria lixo.
E isto de porcos tem que se lhe diga: há outra coincidência histórica, já que os “reis do lixo” há muito classificaram o seu território de recolha, ou seja, alguns países da Europa, como PIGS (Portugal, Ireland, Greece, Spain). Só que “pigs”, em inglês, quer dizer “porcos”.
E há outra coincidência: as fragatas do rei do lixo chamavam-se Mafarrico, Belzebu, Lúcifer, Demónio e Satanás… Bons nomes para chamar a quem, na fúria da ganância, espalha a miséria um pouco por toda a parte, desde que ganhe com isso.
Pode concluir-se, com base no nosso Manuel Martins Gomes Júnior: pode-se ganhar muito dinheiro com o lixo, e para isso há que recorrer a cinco criaturas de nomes diabólicos. Três já são conhecidas (Moody´s, Finch e Standard & Poor´s).
Cadê as outras duas?
Nuno Santa Clara














