De um bom censo ao bom sensoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Em boa hora foi decidido fazer um novo censo em Portugal. Nada melhor do que conhecermo-nos a nós próprios para detectar as nossas fraquezas e as nossas capacidades, diagnosticar as nossas mazelas, procurar remédios, enfim, tirar partido de um trabalho aprofundado, e que custou caro ao depauperado erário público.
Claro que há ali matéria para anos de investigação, e seria absurdo fazer análises profundas sobre dados parcelares.
E os números só na aparência são neutros. Basta integrá-los numa declaração para terem um sentido definido. Ou mesmo, indo para o lado jocoso, lembrar aquele dito, atribuído a Pittigrilli, segundo o qual “se tu comeres um frango inteiro, e eu não comer frango nenhum, comemos em média meio frango; logo, estamos ambos bem alimentados”.
Veio agora a lume um primeiro dado objectivo do censo: o crescimento demográfico. Segundo as estatísticas, a população portuguesa aumentou em cerca de 200.000 habitantes, mas não por crescimento biológico, ou seja, não por terem nascido mais crianças; o número de nascimentos até diminuiu, ou, como se diz na gíria da Demografia, o saldo fisiológico foi negativo: morreram mais portugueses do que os que nasceram.
O aumento de população deve-se à imigração, fenómeno novo num País que historicamente foi sempre uma terra de emigração.
Toque de rebate para os que se sentem ameaçados pela onda de alienígenas que demandam o nosso rectângulo, para não falar no resto da Europa. Mas para mim o importante é tratar o assunto nas suas duas vertentes.
Quanto à imigração, além de ser um fenómeno que transcende as nossas periféricas e muito ocidentais fronteiras, tem, no nosso caso particular, um aspecto que não deve ser esquecido: boa parte dos imigrantes são brasileiros ou oriundos dos PALOP, e o peso das ligações históricas e das afinidades culturais não pode ser descurado. Aliás, algo de semelhante se passa nos países europeus que tiveram colónias. Malhas que o Império tece, como escreveu Fernando Pessoa…
Mas também a tão vilipendiada imigração tem um papel não despiciendo na economia: constituem o que, em termos marxistas, se chama um exército de reserva de mão-de-obra. Para quem tem boa memória, foi o papel que desempenharam os emigrantes portugueses na Europa, sobretudo em França. E é bom não esquecer o que significa a exclusão, a xenofobia, a discriminação pura e dura, sobretudo por quem por elas passou e delas pode dar testemunho.
Mas o curioso da história é que os mais ferrenhos adversários da imigração são por vezes quem mais ganha com ela; se não, vejam-se de onde partem as maiores diatribes e de que vivem os seus autores. Como aquele ministro que tinha uma empregada ucraniana ilegal e não declarada.
A segunda vertente é bem mais directa e mais profunda: nos tempos que correm, ter filhos é um acto de coragem, ou de inconsciência a raiar a irresponsabilidade. Precariedade de emprego, aquisição de casa problemática, juros variáveis, créditos inacessíveis, alugueres incomportáveis. Daqui se passa ao que os franceses chamam de geração canguru: os filhos já andam e comem sozinhos, mas preferem viver na bolsa da mãe… o que é mais cómodo, face às imprevisibilidades da vida moderna.
A isto há a acrescer a substituição da sociedade familiar pela sociedade do indivíduo. Cada um por si é a norma, e o recurso aos avós, ou mesmo ao vizinho do lado, para olhar pelas crianças, é coisa do passado.
Portanto, ter filhos deixou de ser um motivo de júbilo, e passou a ser uma aventura. E, mais uma vez, são os que defendem, na praça pública, os valores tradicionais da família, que negam às famílias os meios de existirem e se manterem enquanto tal.
Em tempos, passou na Televisão uma telenovela intitulada “Pai Herói”. Como depois se viu, não era nenhum herói, excepto na cabeça do filho, que mal o conhecera. Mas, nos tempos correntes, querer ser pai é ser herói, por todas as razões apontadas.
Ninguém se admire que os que mais gritarem contra a baixa de natalidade e a imigração sejam os sectores que criaram essas situações e com elas lucram.
Ao fim e ao cabo são… aquelas contradições, lembram-se?
Nuno Santa Clara














