Que Futuro Para Este País?Por Paulo Marques
Barreiro
É preciso que trabalhemos mais e melhor, poupar mais e gastar menos. Não existem fórmulas mágicas!

Por Jornal Rostos
Os portugueses deram os primeiros passos em direcção à globalização, foram um dos primeiros a moldar o mundo moderno, nos séculos XV e XVI (na gloriosa Era dos Descobrimentos) eram uma das nações mais ricas do mundo. Padre António Vieira, Pessoa e o filósofo Agostinho da Silva profetizaram o mundo português como o «Quinto Império», depois do assírio, do persa, do grego e do romano.
Terra de conquistadores, aventureiros, poetas, marinheiros e fadistas. Berço de Vasco da Gama, de Camões e de Amália. Já nem o passado grandioso do que fomos, suporta o presente e acalenta a esperança no futuro, como foi ensinado aos mais velhos nos bancos da escola (lembram-se?).
Hoje já não temos o Brasil, as colónias africanas e asiáticas e os subsídios comunitários escasseiam. Pagamos um preço elevadíssimo com a entrada na União Europeia. Com a adesão à moeda única as despesas dobraram (dos velhos cem escudos para o actual euro) e as receitas mantiveram-se, ou seja, “diminuíram”. Por isso atravessamos um tempo de escassez, logo de crise e de incertezas.
Sempre que vivemos períodos de maior desenvolvimento foram em grande parte períodos de riqueza artificial, porque suportada naquilo que não era nosso. A verdade é que somos um pequeno país periférico com um nível de desenvolvimento intermédio, com níveis de produção muito baixos, um mercado muito reduzido (somos apenas dez milhões), e condenado à triste fatalidade de ser muito pobre em matérias-primas.
A nossa agricultura está quase votada ao abandono e a nossa indústria é muito pouco competitiva no quadro da actual economia aberta. Estamos hoje reduzidos a um país de comércio e serviços. As nossas exportações são reduzidíssimas comparativamente ao que importamos. Os grandes patrões e a banca não possuem uma cultura de capital de risco. Falta-nos espírito empresarial. Os níveis de instrução dos empresários portugueses são muito baixos e a nossa mão-de-obra é muito pouco qualificada. Não possuímos uma classe média forte e instruída, uma aristocracia com tradição filantrópica. Os nossos ricos são paupérrimos em relação aos mais ricos da Europa.
Por outro lado, somos pouco organizados e disciplinados. É o “desenrascanço português”, o “nacional porreirismo”, em que tudo é feito à última da hora sem uma planificação prévia, uma gestão racional dos recursos e uma avaliação final. Jorge de Sena classificou-nos como «o povo mais anárquico do mundo». Pouco pragmáticos e eficientes. Nada rigorosos nem exigentes. Trabalhamos em “cima do joelho”, contornando obstáculos e dificuldades, apresentando não o melhor resultado ou produto final, mas o possível.
Não diria que somos pouco trabalhadores (ou menos trabalhadores do que os outros). Os portugueses na qualidade de emigrantes, quando se empenham verdadeiramente ou se sentem motivados, são tão ou mais trabalhadores que os seus congéneres europeus.
Porém, consumimos ao nível do Primeiro Mundo e produzimos ao nível do Terceiro. Temos o pior crescimento económico da União Europeia e um atraso estrutural que obrigava a que os mais desenvolvidos tivessem de parar décadas para os podermos apanhar. Contribuímos com apenas um por cento para o PIB da UE. Somos o país mais pobre da Europa Ocidental. A nossa dívida tem valores próximos de níveis insustentáveis. Ganhamos em média cerca de 40% menos do que os trabalhadores de outros países europeus ocidentais. A desigualdade entre ricos e pobres é cada vez maior, as taxas de desemprego crescem, as famílias estão cada vez mais empenhadas à banca. Construímos um futuro nada risonho para as novas gerações. Pior ainda: estamos resignados a essa situação, aceitando-a pacificamente.
Estamos destinados a formar com a Espanha uma única nação ibérica?
Natália Correia dizia que Portugal e Espanha eram respectivamente a fêmea e o macho. Nós muito mais contemplativos, românticos, poetas… e nuestros hermanos muito mais virados para a acção, com poder de iniciativa, garra e dinamismo. Unamuno caracterizou o português como «um castelhano sem ossos». Há algum outro povo que tenha feito uma revolução sem derramamento de sangue e com cravos vermelhos na ponta das espingardas?
Somos um país em que a inveja, o ressentimento e o queixume, enquanto atitude mental, teimam em obstruir o progresso, funcionando como uma barreira psicológica. Um país de “cunhas” e favores, onde impera a subsídiodependência, com uma administração pública demasiado politizada, subserviente, enredada nas teias das “hierarquias e burocracias, Lda.”
Desinteressados e pouco participativos na vida cívica, desresponsabilizamo-nos da causa colectiva. Possuímos um sistema de organização que foi sempre tradicionalmente autoritário e assente naquilo a que Boaventura Sousa Santos já chamou de «cultura da submissão», sem tradição de debate livre, de contraditório. Ora sem crítica, é inconcebível a criação do novo, a aceitação do diverso. Acontece que quer o sistema político, quer as nossas elites, quer o povo, são muito resistentes à mudança.
Herdámos um Estado demasiado centralizado (contudo ineficaz) de quem dependemos excessivamente. Um Estado omnipotente e omnipresente que não confia nos cidadãos e no qual os cidadãos não confiam. Sempre que podem, à mínima hipótese, enganam-se um ao outro.
Os portugueses evitam a todo o custo o confronto, são “rebeldes mansos”. São mais astutos e manhosos do que propriamente fortes. Habilidosos em transgredir as normas, contornar as leis, ludibriar o vizinho, o patrão, a autoridade ou o Estado. A nossa vontade de contrariar, a nossa indignação, a nossa anarquia, raramente se traduz em agressão ou violência. Torga descreveu o país como «um pacífico colectivo de pessoas revoltadas.»
E as democracias não se têm, merecem-se. Não são dádiva generosa, traduzem-se em factos. Não são algo adquirido e de progresso indefinidamente linear, pressupõem uma conquista constante e uma vigília permanente. As democracias têm de ser geridas de forma partilhada, em que o Estado assuma as suas responsabilidades mas em que os cidadãos assumam igualmente as suas. Quando os indivíduos se demitem de participar, quando esperam tudo do Estado, incorremos no perigo dos totalitarismos.
Quem são os nossos inimigos? Os países da Europa desenvolvida? Os países do leste europeu que ocuparam o nosso lugar na UE? O nosso isolamento geográfico? A falta de recursos naturais? A crise mundial? Os nossos líderes nacionais? O cruel destino, o nosso fado? Nós próprios? Seremos uns incorrigíveis preguiçosos?
Há solução para o país? Saída para esta situação?
A pior coisa que nos podia acontecer era o pessimismo ou a resignação. Assumirmos o papel de vítimas. Desistirmos de acreditar em nós. É preciso que os portugueses tomem consciência da realidade, mas apenas como ponto de partida, para depois envidarem todos os esforços de modo a efectuar reais mudanças. Acção acompanhada de reflexão (e não sem uma certa dose de utopia).
Os nossos maiores críticos somos nós! Em Portugal é onde se diz mais mal de Portugal. Os portugueses são os maiores críticos de si mesmos e capazes dos mais rasgados elogios à vida dos outros. «Lá fora», tudo é sempre melhor!
Fazendo eco da expressão de Fernando Pessoa, esta «é a hora» de mudar mentalidades e estruturas, de agirmos a partir de uma visão realista e da reflexão ponderada, antes que seja tarde demais.
É preciso que trabalhemos mais e melhor, poupar mais e gastar menos. Não existem fórmulas mágicas! A realidade histórica demonstra que a saída das crises económicas ou se faz à conta de algumas fontes de rendimento extra, ou cortando nos salários e investimentos e subindo nos impostos e nos preços dos bens e serviços… O que são medidas pouco agradáveis, convenhamos. Contudo, os sacrifícios impõem-se. Sacrifícios que serão tão mais duros quão mais tarde forem assumidos.
E estaremos nós dispostos a fazer sacrifícios pelo país sem contrapartidas? Raramente estivemos. Somos ousados e valentes, embora tenhamos dificuldade em unir esforços, e sejamos pouco perseverantes. Somos muito falhos de espírito de continuidade e de tenacidade na acção. Os portugueses só investem quando é traçado um objectivo claro e são inspirados e galvanizados por um líder determinado. Essa qualidade só episodicamente se revelou ao longo da nossa História.
Para sentirmos motivação é preciso que nos sintamos motivados. Que o esforço seja recompensado no imediato (sob a forma de pequenas contribuições e apoios, progressões nas carreiras, incentivos ao desempenho e ao mérito…) e a médio e longo prazo com resultados visíveis. Que o discurso de quem nos governa seja de optimismo e de confiança nos cidadãos, e não de «bota abaixo» para justificar a necessidade das medidas draconianas. Em momentos de crise o povo precisa como de «pão para a boca» de reforços positivos na sua auto-estima. E muito importante: que o evoluir da situação e as opções e prioridades que são tomadas, a cada momento nos sejam explicadas.
Que exista uma classe governante reformista verdadeiramente apostada em contribuir para o desenvolvimento do país. Que governe com sentido de autoridade sem autoritarismo, com respeito pelas regras democráticas. Que tenha ousadia de confrontar interesses instalados, gastos excessivos, maus hábitos, combatendo sem tréguas o desperdício e a fuga e a evasão fiscal dos «grandes» aos «pequenos», mas que saiba dar com o seu exemplo garantias que dêem segurança aos cidadãos, de modo a devolver-nos a confiança nas instituições e no Estado. Que não corte «aqui para gastar ali», que não sirva clientelismos, que não incorra na tentação de fazer política de show-off governando para as câmaras de televisão. Porém, uma classe governante que tenha sempre presente o respeito pela individualidade e dignidade da pessoa humana, que em vez da competição apregoe a competência.
A realidade é que neste momento, estamos resignados ao bipartidarismo (ora o PS, ora o PSD), duas versões duma mesma política. Não temos outras alternativas políticas credíveis.
A não ser a «conversa de rua», o «passa palavra» na internet, mais ou menos espontâneo, mais ou menos organizado, os protestos encabeçados pelas estruturas sindicais, que vão fazendo alguma mazela, só podemos contar com aquela que verdadeiramente se impôs como contra-poder, capaz de eleger e derrotar governos: a Imprensa. É sobre a Imprensa que temos de estar permanentemente vigilantes para que novos lápis azuis não a venham amordaçar, já que esta é hoje indispensável ao saudável funcionamento da democracia.
Passos Coelho não é um reformista com o estatuto e a credibilidade de um Fontes Pereira de Melo, nem possui o carisma de um Marquês de Pombal ou a áurea messiânica de um Sidónio Pais, e jamais revolucionará os costumes portugueses com o radicalismo de um Afonso Costa. É o governante que merecemos para o país que temos e o povo que somos.
O bom povo português – sempre que lhe foi permitido – sempre soube contestar nas ruas, e no entanto, aprovar nas urnas, de entre os políticos que se apresentam a plebiscito, aqueles que dispõem de melhores condições para governar. Sempre soubemos delegar na nossa classe governante os destinos da nação, mas a verdade é que a grande maioria de nós, nunca quisemos despender para além do acto cívico de votar (de entre aqueles que ainda o fazem), um minuto da nossa vida para o bem da nação. Pensa-se sempre em relação “ao seu umbigo”.
A minha dúvida (e o meu receio) relativamente a Passos Coelho não é que ele não «saiba o que quer», mas que ele não «saiba para onde nos leva». Determinação e espírito empreendedor não faltam a este Executivo, porém, será que têm um projecto de desenvolvimento para o país para além do vaguíssimo Programa de Governo? Já alguém o explicou? Alguém o conhece?
Hoje, é-nos apresentado o «choque tecnológico» como a grande panaceia de todos os atrasos, assente no mito do imperativo absoluto da revolução tecnocientífica. Os meios tecnológicos sem dúvida que nos permitem receber muito mais informação e em muito menos tempo. Além disso, ligaram o mundo a uma escala global. Mas seremos nós capazes de actuar em função da informação que recebemos? O mundo está sem dúvida mais perto mas estará mais próximo? Infelizmente, mais informação não significa necessariamente mais conhecimento e muito menos maior capacidade de saber-fazer. O conhecimento exige dedicação, disciplina e grande trabalho pessoal. Esforços a que não parecemos estar muito receptivos…
Do mesmo modo, embora seja socialmente incorrecto dizê-lo, o aumento do nível de instrução e de formação profissional ajudam, mas não são a solução mágica. Cuba é um país altamente instruído e não se desenvolveu (pese embora a circunstância do embargo). Quantos licenciados temos nós à procura do primeiro emprego ou desempregados?
O que temos que nos distinga dos outros povos europeus? Qual é a nossa originalidade?
Temos excelentes recursos naturais: o mar, os rios e o sol, e no entanto, não sabemos sequer tirar partido daquela que poderia ser uma das maiores fontes de receitas do país: o turismo. A nossa gastronomia é riquíssima, temos um clima agradável e suave, excelentes praias, a beleza e variedade da nossa paisagem tendo em conta o espaço tão exíguo (561 quilómetros de comprimento, por 218 de largura). O povo português é hospitaleiro, generoso e solícito e Portugal é um país na generalidade seguro, não-violento. Uma herança de gerações de misturas étnicas fizeram de nós um povo aparentemente despreconceituoso, sem grandes fricções raciais. Além disso, pela complexidade da nossa, possuímos um jeito especial para falar outras línguas.
Porém, permanecemos pouco conhecidos no mundo, mesmo na Europa e até, pasme-se, em Espanha, embora recebamos todos os anos cerca de 12 milhões de turistas.
Falta-nos criar uma «marca portuguesa» e vendê-la como um produto de qualidade, de excepção, sobretudo ao mercado externo, atraindo investimento. É preciso que sejamos criativos. Que saibamos aliar a inovação com a tradição. Falta-nos reinventar Portugal mobilizando energias criadoras. Eram precisos mais travesseiros de Sintra, mais vinhos do Porto, mais rolhas de cortiça, mais tapetes de Arraiolos, mais pastéis de Belém, mais móveis de Paços de Ferreira, mais Gulbenkians, mais Sizas Vieiras…
Temos a nosso favor o facto de possuirmos uma boa capacidade de adaptação mesmo às piores circunstâncias. Sabemos contornar os problemas. Infelizmente não ultrapassá-los. Nos grandes momentos da nossa História fomos capazes de agir com uma invulgar originalidade, enfrentando o estranho e o desconhecido, suscitando a admiração dos outros povos. Paradoxalmente, nos longos anos da normalidade histórica vivemos uma existência morna, de «brandos costumes», possuídos por uma espécie de adormecimento.
Herdeiros da mais longa ditadura da história europeia, descendentes dos «Vencidos da Vida», o nosso problema é que vivemos envergonhados e desacreditados de nós próprios, com «medo de existir», como denunciou o filósofo José Gil. Pesa contra os portugueses, o facto de já ninguém acreditar neste país. E a questão é que não se perfilha no horizonte solução para os nossos males. Para nós, nem já o país analfabeto, rural e isolado que fomos e cada vez menos o país conservador e moralista do passado, porém, permanecemos cada vez mais afastados do «pelotão da frente» europeu.
Paulo Marques














