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Quotidianos

Não. Não se rendeu.Por José Assis
Seixal

Não se rendeu porque não embarcou num processo caótico de radicalismo. Obama cumpriu a obrigação, que em si reside, de defender a cidadania global e com isso a paz, valor acima das concepções económicas dos Estados, e com isso assumiu, também, a austeridade nos EUA.

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Não. Não se rendeu. Por José Assis Seixal

Por Jornal Rostos

A prudência de Obama, in extremis e após contratempos e chantagens politicas, tanto no senado como no congresso norte americanos, em, pela via dos democratas, por um lado, e como presidente dos EUA por outro, aceitar o aumento do tecto da divida, não como desejaria mas como foi possível, demonstrou que a politica é, neste momento de pragmatismo global, mesmo a arte do possível. Não permitiu que os EUA entrassem em incumprimento e que um castelo/fortaleza de cartas caísse, o que, a suceder, contribuiria para agudizar a actual depressão do mundo ocidental não emergente.

Paul krugman escreveu que Obama se rendeu e estribou os seus argumentos, autorizados, no facto de não haver perspectiva de crescimento com o acordo alcançado, na medida em que os principios fortes subjacentes ao mesmo -o corte na despesa e o acanhamento na receita cobrada aos mais ricos- somam ( e somam) recessão à recessão. A visão liberal ( no caso uma moderada atitude e pensamento liberais num quadro comparativo norte americano ) do Nobel não se conteve somente na análise económica do acordo entre republicanos e democratas. Ao titulo conclusivo da rendição de Obama parece estar subentendido uma, de resto estranha, wishful thinking.

Por cá o acompanhamento à critica a Obama, num ímpeto da reacção a quente, incluindo pessoas da área socialista, quase ajudou a estratégia dos republicanos norte americanos. Na verdade Obama não poderia ir, hoje, mais longe. O seu empenho, que passou por uma longa declaração ao seu povo, de potente motivação para a união, bem como a explicação aberta do seu pensamento com preocupações sociais, foi ao limite dos seus poderes constitucionais normais. É certo que o pendor mais liberal ganhou neste braço de ferro entre a visão direitista e uma visão moderada com sensibilidade social. É certo que Krugman não ficou feliz, não se sabendo se por patriotismo, se por convicção académica ou se por estar desapontado com Obama, mas a minimização de danos, que Obama permitiu com sua intervenção, em especial quando o seu partido está em minoria, não se rendendo, é notável e evitou, não a turbulência dos mercados mas a turbulência global. Não se rendeu porque não embarcou num processo caótico de radicalismo. Obama cumpriu a obrigação, que em si reside, de defender a cidadania global e com isso a paz, valor acima das concepções económicas dos Estados, e com isso assumiu, também, a austeridade nos EUA. Fichar os EUA com catálogos, neste momento, é fechar as janelas de oportunidade para a recuperação, mesmo que para isso se dê meio passo atrás para dar um e meio para a frente.

Mas a turbulência, aliás provocada, dos mercados atravessa-se aos Estados, quais sejam os seus regimes políticos e o seu modelo económico. Num quadro europeu onde os governos socialistas são escassos, a internacional socialista um fantasma, as acusações a destacados socialistas permanentes, a fragilidade de Obama até 2012 e o fechar-se em cima mesmo dos EUA provocaria a fragilidade, não só de uma esperança nos próprios EUA mas em todo o mundo, eu diria, em todo o mundo global.

É por isso que um fundamentalismo hostil a Obama por parte da esquerda mesmo que liberal seria ... mais um fundamentalismo com tudo o que isso encerra.

José Assis

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