O SUB-PRIME PORTUGUÊSPor José Soares
Barreiro

Por Jornal Rostos
O sub-prime original baseava-se, em termos fáceis de entender, na expectativa de que o preço das habitações, que vinha crescendo desde 1945, não pararia. Com base nisso concediam créditos para aquisição mesmo a quem não apresentava garantias de poder vir a cumprir no futuro. Os bancos e outras entidades financeiras argumentavam, baseando-se na teoria dos conjuntos, que mesmo que um ou outro viesse a falhar, no global as operações seriam altamente rentáveis. A subida do preço das casas compensaria eventuais perdas. A rentabilidade desta banca fez subir o valor das suas acções e títulos de investimento (os tais investimentos tóxicos ) que foram vendendo pelo mundo fora. Quando rebentou levou tudo ao chão. Só não percebi, ainda, se foi tudo obra de avidez de lucros fáceis com base em expectativas infundadas ou se foi premeditado. O que sei e sabemos todos, foi que originou milhares de falências por todo o mundo.
Em Portugal, que dizem não ter enfiado esse barrete – provávelmente por o BPN e o BPP não serem portugueses (?) - a “sofisticação” era maior.
Na altura do “boom” da construção civil, pela apetência induzida de aquisição de habitação – no início por interesses políticos (era necessário fixar a população a espaços geográficos faceis de manipular/controlar com a velha conversa da defesa dos trabalhadores ) e mais recentemente, após a adesão ao Euro, pela manipulação dos interessses financeiros (usufrua agora pague depois – casa, carro, mobilias, electrodomésticos ), que aproveitando os juros “baixos” empolavam o valor das habitações quando da avaliação e, concediam crédito cobrindo, através desse estratagema, não só a casa, como o carro e todo o equipamento necessário. Em simultâneo, os construtores civis aproveitaram a boleia bancária e subiram também – pela ganância que sempre mostraram – o preço de venda. Foi a nossa bolha especulativa.
Como os bancos não imprimem notas – espero eu – só lhes restou irem ao mercado “arranjá-las”. Uma contribuição sã para a nossa, já enorme, divida externa.
No último quadrimestre de 2007 começaram a vislumbrar-se os primeiros sinais da crise mundial. Esta, ainda, está longe de ser dominada. Como consequência, e porque a nossa situação já não era boa e o BCE, na sua política cega de combate à inflação- sem cuidar da economia real - começou em 2010 a subir a sua taxa de juro orientadora...
Os juros têm vindo a subir e bem, levando cada vez mais ao incumprimento por parte dos devedores. Acresce que as condições financeiras e económicas do País têm levado a uma aceleração do desfazer do tecido empresarial, são falências atrás de falências, com o consequente aumento do desemprego, originando este a mais e novos incumprimentos por parte dos devedores, agora não só à banca como ao fisco.
As penhoras crescem todos os dias com uma agravante.
Agora os bancos dizem que a casa penhorada já não vale o que valia quando da concessão do crédito (foram eles que fizeram a avaliação – onde é que já vi este filme?) ficando com as casas das pessoas e fazendo com que ainda fiquem devedoras de muitas dezenas de milhares de Euros, pela diferença entre a dívida e o valor actual da casa. Este é o nosso sub-prime.
Pergunto, a quem interessa isto para além dos próprios bancos? Quem irá comprar as casas? Nacionais? Estrangeiros ? Particulares? Institucionais?
E o que se refere a habitação, aplica-se a empresas, terrenos rurais e urbanos e a espaços comerciais. É o fartar vilanagem.
Culpa? Os juros altos. Que levam particulares e entidades colectivas à falência.
MAS O QUE SÃO JUROS?
Fazendo-nos crer que o dinheiro é uma mercadoria – como outra qualquer outra coisa palpável e visível que compramos numa loja de rua ou supermercado - dizem-nos que o juro é o preço do dinheiro.
Seria, quanto a mim, mais correcto que se se dissesse que “é o preço a pagar pela utilização temporária de dinheiro de outrem”.
Com base nesta definição, que aprovo, os juros até seriam morais e justos. Pois teriam o efeito de demover o crédito pelo crédito – em que só pagaríamos o capital – e compensariam monetariamente o emprestador por abdicar de uma outra qualquer aplicação para as suas poupanças.
Foi mais ou menos assim até ao Séc. XVIII com a aprovação tácita das igrejas. Então, apareceram uns senhores cheios de boas intenções, que criaram umas casas a que deram o nome de bancos, que se prestaram a guardar as poupanças existentes devolvendo-as aos proprietários quando estes delas necessitassem no todo ou em parte. Com as poupanças de uns emprestavam dinheiro o outros.
Com a experiência aperceberam-se que raramente alguém pedia todo o dinheiro guardado no banco de volta. Ora isso permitia-lhes conceder crédito para além do dinheiro que tinham guardado – o rácio autorizado em Portugal é de 120%, isto é, os bancos podem emprestar até 1,2 vezes mais do que a quantia de que têm em depósitos – passando a cobrar juros sobre dinheiro que não existia ( aquilo que parecia moral e justo deixou de o ser ).
Não satisfeitos com esta possibilidade, os tais senhores bem intencionados resolveram passar a ganhar dinheiro injectando capital próprio ou alheio nos bancos para poderem emprestar com juros de valor muito superior àquele que pagavam pelo capital que metiam no banco.
Estava criada uma das principais funções dos bancos – a criação de dinheiro. Como?
É facil de entender, sem estender o exemplo ao limite e utilizando um só banco para melhor apreensão. O cliente 1 deposita no banco 1.000 € em notas (é dinheiro real). O banco credita a conta do cliente em 1000€. Sabendo que o cliente não irá levantar mais do 500 € durante um determinado período de tempo, resolve emprestar os 500 € não levantados ao cliente 2, creditando a sua conta. Passou a haver nas contas do banco 1.500 €. Foi criado dinheiro. Pela utilização deste dinheiro, que, de facto, só existe escriturado nas contas do banco, será pago um determinada quantia referente a juros. Lá se foi a moralidade e a justeza dos juros, pois serão pagos sobre algo que não existe.
A teoria monetária afirma que um depósito pode originar até 9 (nove)! vezes o seu valor. Aqueles 1.000 € iniciais poderiam dar origem a 9.000 €!
Face às criticas que se foram levantando, os tais senhores bem intencionados – os chamados banqueiros – começaram a argumentar que os juros eram justos pois permitiam alavancar a economia. O que é isto de alavancar a economia? É fácil, se um qualquer negócio tiver uma taxa de rendibilidade de, por exemplo, 14 % e se houver um banco que empreste capital para investir a 10%, o negócio cresce com o investimento e ainda tem uma margem de 4% de rendibilidade ( a diferença entre os 14% e os 10%). Na teoria é assim e deve-se recorrer a empréstimos nestas condições.
Só que na economia que faz andar o país, a das pequenas e médias empresas, isto raramente se verifica. Em vez de alavancá-las o crédito, agiota é o adjectivo que me ocorre para classificar o que se tem vindo a praticar um pouco por todo o lado, tem-nas afundado e levado à falência, com as consequências de todos conhecidas; desemprego, subconsumo, mais desemprego e aumento das transferências sociais do Estado.
Qual a solução?
Pôr os bancos a servirem o País, as empresas e os cidadãos e não o inverso. Fico irritado quando vejo e leio notícias dizendo que os bancos viram os seus lucros diminuirem face a períodos anteriores, mas mesmo assim lucram dezenas ou mesmo centenas de milhões de Euros num País falido.
Em vez de exigirem que o Estado lhes pague o deve, necessitam de sentar-se à mesa com esse mesmo Estado e renegociar. Pelo menos as taxas de juro que negociaram de empréstimos directos e também nas PPP de que fazem parte.
Em vez de levarem empresas à falência, penhorando os seus bens e os dos empresários deveriam sentar-se à mesa e renegociar taxas de juro e conceder-lhes mais tempo para honrar os compromissos. É tempo de os bancos se dedicarem ao seu negócio, captar depósitos para ajudar a economia, e deixarem de querer controlar toda a economia através da tomada de posições dominantes ou não nos outros sectores. Foi assim em 1929. Espero não ter de ver o meu País nessa situação. Penso que se tal vier a verificar-se os verdadeiros Portugueses saberão reagir.(Londres, não é assim tão longe)
Em vez de penhorarem habitações familiares, deveriam renegociar juros e prazos e, em casos de sobreavaliação quando da concessão do crédito deveriam perdoar a parte do capital inexistente.
Mais que um artigo de opinião, escrevo isto para obrigar a reflectir a quem tiver paciência para me ler.
Sou adepto de que o Mundo só avança com conflito ( de opiniões, leia-se).Os concensos, só adormecem os povos.
Quando leccionava, no início do ano, dizia sempre aos alunos; o que digo não é a verdade absoluta, há sempre algo de subjectivo no que vos transmito, portanto questionem-me, questionem os vossos pais e acima de tudo questionem-se a vós próprios e uns aos outros.
Quando somos pequenos, aborrecemos os outros com tantos porquês. Se não o fizéssemos não evoluiríamos. Hoje, com o dominio da (des)informação, temos que fazer cada vez mais perguntas.
Quando lerem isto, se for publicado, quantos de vós saberão que houve uma explosão numa central nuclear em França no dia 2 de Agosto? As explosões solares terão influência no mau funcionamento nas redes 3G? O petróleo será mesmo fossil? Acabará um dia? Não era para ter acabado em 1970? A guerra do golfo foi para acabar com o Sadan ou para fazer subir o preço do petróleo? O Iraque produzia 6.000.000 de barris por dia e hoje, em que mais precisava das receitas do petróleo para se reconstruir, só produz 2.000.000 de barris por dia.
José Soares
08AGO11














