Quase futuroJoão Duarte Albuquerque
Barreiro

Por Jornal Rostos
“O Arco Ribeirinho da Margem Sul (ARS) é um projeto muito ambicioso, pensado à semelhança do que foi a Parque Expo, mas neste momento não há condições para avançar. Demorará décadas, por isso não será seguramente neste contexto que o projeto vai avançar.”
Assunção Cristas – Ministra da Agricultura, Ambiente, Mar e Ordenamento do Território
19 de Agosto de 2011
“O Ministério da Economia e Emprego vai cancelar parte do investimento contratado com a subconcessão do Baixo Tejo, eliminando 6 dos 10 troços que compõem o empreendimento adjudicado em 2009 ao consórcio liderado pela Brisa. (…) Ainda que nalguns casos os trabalhos no terreno estejam já em estado avançado, o Governo pretende atuar, onde for possível, na maioria destas vias, seja cancelando a construção de troços que ainda não se iniciou, seja cortando a manutenção e conservação contratada pelo prazo da concessão.”
Jornal de Negócios
22 de Agosto 2011.
Não deixa de ser surpreendente que, em apenas 4 dias, o Governo, mesmo com super ministras e ministros, tenha conseguido puxar de forma tão célere e decisiva o tapete ao desenvolvimento estruturante da margem sul do Tejo e, com a sua veia reacionária, retardar as aspirações de cerca de 400 mil pessoas que por cá habitam (contando apenas Almada, Barreiro e Seixal). No fundo, o projeto até é interessante mas pode esperar; no fundo, o Arco Ribeirinho Sul até tem as contas equilibradas e auto impõe-se a impossibilidade de criar encargos para o Estado, gerando receitas próprias, mas tem de ser extinto; no fundo, é um plano de reconversão de terrenos industriais, como aconteceu na zona oriental de Lisboa nos idos (e longínquos) anos 90, para recuperar áreas fortemente penalizadas pelas indústrias pesadas da primeira metade do século XX, mas neste contexto não (frase ignominiosa, esta do contexto que, no fundo, apenas significa que esta não é a altura de governar para as pessoas, que a urgência é outra, que a hora é de governar com e para os números).
O Barreiro não tem de viver envergonhado do seu passado industrial; o passado que formou a identidade da nossa cidade foi moldado pela alma de milhares de pessoas que todos os dias entregaram o corpo para a construção de um projeto que revolucionou e modernizou toda a produção industrial em Portugal. E o coração desta revolução, esta “vila” de que tanto gostamos, ficou indelevelmente manchado, corroído pelas marcas contaminantes que não puderam ser eliminadas da marcha do progresso. E quando a Siderurgia Nacional e a Lisnave ebuliam, produzindo, reparando, transformando, criando o que a todos servia, eram o Seixal e Almada que efervesciam vendo o futuro ganhar contornos cinzentos. O tempo chegou em que estas antigas vilas, as que se transformaram em cidades albergue de quase meio milhão de pessoas, perderam a sua pujança industrial, fruto dos tempos do comércio e dos serviços, da “modernidade” global. Passadas algumas décadas de declínio acentuado desta indústria, as manchas permanecem nos nossos corações porque por cá permanecem os monstros decrépitos do passado rico e produtivo.
Quando a Câmara do Barreiro apresentou pomposamente o plano de urbanização da Quimiparque não mentiu: o plano segue, efetivamente, a forma pela qual foi designado e os números sobrepõem-se às pessoas na hora da decisão. O número de novas habitações a criar nesta área levantam, no mínimo a dúvida sobre a adequação existente entre o número de fogos e o número de pessoas (cada vez menor) desta terra. E, agora, quando se esfumam as âncoras nacionais que sustentavam tudo, ilusões e projetos, para onde vai o progresso e o futuro?
A herança pesa porque poucos querem saber do que aqui se passa. Que importância tem? Quem aguentou 13 anos para que se corrigisse um erro estratégico no planeamento rodoviário desta região, com uma ponte que serviu a pouco mais gente que aquela que a construiu e planeou (e continua a “gerir”), aguenta certamente outros tantos, até que o contexto volte a ser favorável. E que importância tem que os barreirenses tenham de pagar portagem para entrar e sair da sua cidade e outra taxa para usufruir do trabalho que se concentra na capital? E se as vias de comunicação projetadas para encurtar distâncias e reduzir o tráfego de milhares de pessoas diariamente têm de ser canceladas, mesmo que isso implique não fazer a sua manutenção, de que vale sequer argumentar, barafustar, protestar, contestar? É preciso cortar, é preciso reduzir, é preciso ir mais além do que o além que por cá anda queria ir. Todo o trabalho que se vem fazendo nos últimos anos de recuperação e reconversão das áreas industriais decadentes, sobretudo de planeamento estratégico, rara coisa por estas urbes, pode facilmente ser travado sem explicação convincente, sem olhar a custos e riscos, danos e consequências para nós, os que vivemos por cá e por cá nos sentimos. Gente serena por estas terras, “suave”, como se diz agora do lado do Atlântico por onde já andámos e que também ajudámos a encontrar. Será?
João Duarte Albuquerque














