Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Imagens que ficamPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Esses adultos e sobretudo os velhos, nos seus tempos (há 47 anos!) vitoriaram Kadaffi. Como muitos republicanos vitoriaram Gomes da Costa, em 1926. Depois… vieram os tais 48 anos, como para eles vieram quase outros tantos. Aplicando a regra base do determinismo, as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos. Pelo que não temos de nos admirar, e ainda menos escandalizar.

3 min de leitura
Imagens que ficam Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

A superabundância das imagens que entram pelas nossas casas e locais públicos sobre a Guerra da Líbia podia levar ao embotamento dos sentimentos, pela vulgarização da exibição de tais cenas. Mas há sempre algumas que ficam; no caso, as manifestações de regozijo da população à passagem das forças dos insurgentes (depois de assegurada a vitória, claro!).
Essas cenas trouxeram-me à memória outras semelhantes, presenciadas pelas pessoas da minha idade, no já longínquo dia 25 de Abril de 1974. Quem assistiu a ela, jamais esquecerá.
Ora, lembro-me de uma crónica de um jornalista francês que, às primeiras notícias da nossa Revolução, meteu-se num carro e veio até Portugal. Teve dificuldades na fronteira, e resolveu continuar a viagem para Lisboa no dia seguinte. Numa terrinha do interior, assistiu a uma cena que o deixou siderado. Na tasquinha local estavam vários habitantes a jogar à sueca, aparentemente alheios ao que se passava. Mesmo quando o noticiário da televisão abriu com as notícias em directo do que se passava no País, os fregueses continuaram a jogar a sua sueca, deitando apenas um olhar de soslaio à televisão, e nada de comentários.
O francês percebeu. Percebeu sobretudo o que 48 anos de repressão podem fazer a um povo, a ponto de o fazer alhear de qualquer curiosidade ou comentário comprometedor; de facto, uma mera questão de sobrevivência.
Pois as imagens da Líbia tinham algo de semelhante. Em primeiro plano, a coluna de viaturas (as já célebres pick-up com armamento pesado) com os insurgentes vitoriosos; ao longo da estrada, bandos de jovens e adolescentes vitoriando a coluna; mas, por detrás deles, os mais adultos e os anciãos sentados à porta das suas casas, talvez cavaqueando sobre coisas sérias, e sobretudo aguardando o que o futuro lhes reserva.
De deixar um travo amargo na boca.
Esses adultos e sobretudo os velhos, nos seus tempos (há 47 anos!) vitoriaram Kadaffi. Como muitos republicanos vitoriaram Gomes da Costa, em 1926. Depois… vieram os tais 48 anos, como para eles vieram quase outros tantos. Aplicando a regra base do determinismo, as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos. Pelo que não temos de nos admirar, e ainda menos escandalizar.
Lembro-me até de ter lido um artigo na inefável Reader´s Digest elogiando o novo líder da Líbia. Sic transit gloria mundi. Ou será que estou velho?
Mas uma coisa é certa, desde os tempos imemoriais: todo o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção