Dez anos depoisPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Nos últimos dias temos sido bombardeados com todo o tipo de comemorações, análises, passagem de imagens da época, enfim, o habitual nestas ocasiões.
Não faltaram naturalmente as reflexões sobre as causas e efeitos do 11 de Setembro. E, dentro das consequências, sobretudo o desencadear da II Guerra do Iraque, para a qual se foram buscar ameaças, razões e justificações que, se na altura já pareciam duvidosas, o tempo se encarregou de mostrar serem falsas, e, pior ainda, montadas peça a peça.
Em tempos, os serviços de informação americanos começaram a compilar dados sobre o perfil psicológico de alguns adversários. Procuravam assim prever as atitudes e decisões dessas personalidades, e, não só antecipar os seus actos, como talvez provocá-los, empurrando o adversário para decisões erradas.
Não sabemos se Bin Laden e os seus seguidores, ao planear o 11 de Setembro, contaram com a reacção errada do seu adversário. Seria esperar de mais daquela gente, mas o efeito prático foi esse: um erro monumental por parte do Presidente Bush.
De qualquer forma, caímos aqui numa questão muito antiga: as decisões dos chefes políticos e militares são tomadas racionalmente, ou terão uma componente psicológica? Lembrando Descartes, o coração tem razões que a razão desconhece (com pedido de desculpas ao Prof. António Damásio).
Ora, o coração de Bush pedia-lhe guerra, e as razões, devidamente trabalhadas, acabaram por parecer Razão. E, ainda dentro da psicologia, é possível que, nalgum relacionamento complicado entre pai e filho, Bush filho quisesse ultrapassar Bush pai, e levar a guerra onde ele não quisera, ou pudera, levar.
Pura especulação, claro. Mas a componente psicológica, se não justifica por si só as decisões, pode bem ser utilizada para justificar as acções. Sobretudo a psicologia de grupo.
Naqueles dias de Setembro, e acompanhando o montar da máquina de guerra contra o Iraque, recordei um curto episódio durante uma visita de estudo ao Regimento de Artilharia de Costa, em Oeiras. Perguntei a um colega americano como era a artilharia de costa na terra dele. O homem arregalou os olhos, como se eu tivesse dito uma enormidade, e depois respondeu: nós não temos defesa de costa!
Pois não: a defesa da costa americana fazia-se numa linha que passava pela Europa Central, pelo Japão e Coreia, pelo Índico, pelo Ártico, enfim, a milhares de quilómetros das praias do Continental United States (CONUS). Quão longe do tempo de antes da I Guerra Mundial, quando cerca de um quarto do Exército Americano estava dedicado à defesa de costa…
O americano médio foi educado na crença da inviolabilidade do CONUS. Daí a confusão lançada com a passagem de Cuba para o outro lado, e a histeria colectiva quando se descobriu que um míssil poderia cair em qualquer parte do seu território. Isolada Cuba, conseguidos os acordos de limitação de armamento, tudo parecia ir bem, com o CONUS a bom recato.
Daí o choque resultante do atentado às Twin Towers; não porque se tratava de um local simbólico (o centro de Nova Iorque); não tanto pelo volume de estragos; mas por se tratar de um ataque vindo de dentro do território nacional, acabando brutalmente com o mito da sua inviolabilidade.
Ao fim e ao cabo, o grande atingido foi uma certa cultura americana; aquela nascida com a doutrina de Monroe (America for americans), continuada com o isolacionismo americano da primeira metade do século XX, prolongada com o conceito da american way of life e da América, polícia do Mundo. A descoberta das fragilidades veio da pior forma, e a reacção foi, de certo modo a lógica, dados os pressupostos. Não foi a racional busca dos culpados, não foi a abertura a terceiros na luta contra o terrorismo, mas sim a procura de um bode expiatório.
Claro que o Iraque era a vítima ideal; além de todos os malefícios, tinha petróleo (área da especialidade de Bush) e uma reconstrução a fazer (área de Dick Cheney). E, tal como o Charlot nas Trincheiras, que deu um pontapé no cão por não ter mais em quem descarregar, vá de bater em Saddam; não que fosse boa rês, mas se tivesse continuado em funções haveria centenas de milhares de pessoas que ainda estariam vivas. E teria naturalmente sido despedido com justa causa, à semelhança de outros tiranos agora a contas com as revoluções vindas de dentro.
Outro efeito colateral foi a redução dos direitos cívicos, esse outro dogma da cultura americana. Depois da luta pelos direitos humanos da minoria negra, eis a minoria muçulmana metida em trabalhos. E mais: foi estabelecida uma prisão de discutível legalidade em Guantanamo, fora de território americano, não fosse algum abelhudo juiz de comarca querer saber o que se passava na sua área. Para não falar de voos fantasma e passageiros não declarados…
Efeito maléfico ainda a redução de liberdade de circulação. Ao sonho, que hoje parece utópico, da aldeia global, em que cada um seria livre de tomar um avião, navio ou comboio para ir a qualquer lugar, sucedeu o pesadelo dos controlos múltiplos, sobretudo nos aeroportos. Pessoalmente, tive que tirar o cinto, já tirei as botas, tive de abrir a máquina fotográfica e o computador, tive de abrir o telemóvel, já fui apalpado várias vezes. Que grande passo atrás! Já não falo do preço astronómico dessas medidas, de duvidosa eficácia; falo do complexo do marginal, que ataca cada um que pretende embarcar e se esquece da pasta de dentes na bagagem de mão, crime previsto e punido com confisco do tubo de pasta, acompanhado de olhares desconfiados dos seguranças.
O que mudou nestes dez anos? Melhor seria dizer o que poderia ter mudado. Em Espanha, após os atentados de 11 de Fevereiro, não houve caça às bruxas, nem invasão de Marrocos, nem bombardeamento do Sahará; apenas um reforço da investigação, com bons resultados. Conheço até o caso de uma sobrevivente que foi de imediato passar uns dias a um país árabe…
O que parece ter mudado, ainda que de modo insuficiente, é a postura dos países ocidentais em relação ao Mundo Islâmico. De modo aberto e natural, sem medos ou complexos. Lembrando que o Mediterrâneo sempre foi um traço de união e meio de ligação entre os povos.
Com a mesma simplicidade com que, nas cerimónias de homenagem aos mortos da Guerra Colonial, oficiam um sacerdote católico e o líder da comunidade muçulmana.
Nuno Santa Clara














